Carnaval na Lona de Rogério Reis

“A lona é a cortina entre o excesso e o que de fato quero ver”, diz  Rogério Reis na introdução do seu livro Na Lona. Ao longo de catorze anos, Rogério fotografou o carnaval no Rio de Janeiro.

O retrato dá importância ao retratado, singulariza-o. Já a lona traz o foco para o indivíduo, antes confundido com a multidão. Destacando os foliões do contexto, Rogério os magnifica e, em  seu palco – a lona – faz deles protagonistas.

As imagens nos mostram a inventividade e a criatividade do folião, que improvisa e cria fantasias com materiais precários, enfatizando o exagero e o excesso. Seu acervo lega à posteridade a riqueza de rostos, máscaras, fantasias e tipos humanos, nos quais reside a voz do atrevimento, a coragem de transgredir, a inversão de valores. As imagens do fotógrafo – feitas em preto e branco – fazem do carnaval, que é colorido por natureza, algo quase irreal.

O  fundo liso – a lona – tornou famosos grandes retratistas franceses e é um recurso que acompanha os fotógrafos desde o início da fotografia, como forma  de valorizar o cliente que encomendava o retrato.  No século 19, diversos fotógrafos que viviam no Brasil utilizaram-no: Marc Ferrez, Alberto Henschel, Augusto Stahl ou Christiano Jr.

O fundo neutro – seja ele de papel, lona, pano; uma parede ou qualquer coisa que destaque o retratado do entorno – é um recurso utilizado até hoje, já que é essencialmente ligado à representação. Lançam mão deste artifício de fotógrafos de moda a fotojornalistas. Irving Penn, que à frente de um fundo infinito pôs de modelos de alta-costura a nômades do Saara, disse, certa vez: “Preferi tarefa mais limitada: ocupar-me somente da pessoa, longe dos incidentes de sua vida cotidiana, vestindo simplesmente suas roupas e ornamentos, isolada em meu estúdio”.

É interessante lembrar que o fundo neutro não é utilizado, quando o interesse é contextualizar o retratado. Para Rogério, o contexto não era necessário: isolados, os foliões parecem, às vezes, com esculturas. Assim, a mensagem que carregam, muito mais social do que estética, também se destaca.

Todo retrato é uma máscara mortuária, uma ilusão de que podemos deter o tempo. Todo retrato nos coloca  diante de nossa finitude. Mas estamos no carnaval e as deliciosas fotografias de Rogério Reis nos fazem viver a alegria que a vida pode nos proporcionar.

Joaquim Paiva

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