Arthur Omar e o glorioso da face carnavalesca

“A minha série Antropologia da face gloriosa começou em 1973 como um percurso através do Rio de Janeiro no Carnaval, registrando a multiplicidade quase alucinatória nas ruas da cidade. Nos anos 1970, a presença popular ainda era muito marcada. Se por um lado hoje isso diminuiu um pouco, por outro, o projeto se tornou mais sutil e meticuloso.

No início, era espontâneo, inocente. Ia porque achava divertido. Não tinha qualquer obrigação. Aos poucos, percebi que uma atividade constante e coerente estava sendo executada ali, na materialidade do que fazia. Era uma relação com o outro, a aparição do rosto do outro. Uma relação fotográfica de fascínio e obsessão, repetitiva e insistente, misto de gozo e terror, cujo produto era reunido num arquivo que não cessava de crescer.

Aos olhos do fotógrafo, naqueles momentos cruciais, momentos de intensa dilapidação da essência, os retratados pareciam vindos de outro universo. Cada um era uma população ou uma tribo de uma só pessoa, pertencente a uma esfera de total disfarce, mas, ainda assim, dividido em grupos estudáveis e passíveis de descrição (embora in-descritíveis). Ali, havia simulações de mundos que aparentemente eram primitivos, saídos do interior do inconsciente coletivo e transformados pela fantasia concreta de outros mundos, encaixados como cartas de baralho.

Apesar de próximos a mim na cidade, eram oriundos de uma grande distância experiencial. A rua era a mesa. As cartas empilhadas num monte, ou ocultas na mão dos jogadores. Não era um jogo de paciência, mais parecia pôquer, onde o olhar faz parte da técnica do jogador. Nesses momentos iniciais, ainda blefava e tentava dominar a atividade dos olhos.”

Fonte: revistazum

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