Carnaval na Lona de Rogério Reis

“A lona é a cortina entre o excesso e o que de fato quero ver”, diz  Rogério Reis na introdução do seu livro Na Lona. Ao longo de catorze anos, Rogério fotografou o carnaval no Rio de Janeiro.

O retrato dá importância ao retratado, singulariza-o. Já a lona traz o foco para o indivíduo, antes confundido com a multidão. Destacando os foliões do contexto, Rogério os magnifica e, em  seu palco – a lona – faz deles protagonistas.

As imagens nos mostram a inventividade e a criatividade do folião, que improvisa e cria fantasias com materiais precários, enfatizando o exagero e o excesso. Seu acervo lega à posteridade a riqueza de rostos, máscaras, fantasias e tipos humanos, nos quais reside a voz do atrevimento, a coragem de transgredir, a inversão de valores. As imagens do fotógrafo – feitas em preto e branco – fazem do carnaval, que é colorido por natureza, algo quase irreal.

O  fundo liso – a lona – tornou famosos grandes retratistas franceses e é um recurso que acompanha os fotógrafos desde o início da fotografia, como forma  de valorizar o cliente que encomendava o retrato.  No século 19, diversos fotógrafos que viviam no Brasil utilizaram-no: Marc Ferrez, Alberto Henschel, Augusto Stahl ou Christiano Jr.

O fundo neutro – seja ele de papel, lona, pano; uma parede ou qualquer coisa que destaque o retratado do entorno – é um recurso utilizado até hoje, já que é essencialmente ligado à representação. Lançam mão deste artifício de fotógrafos de moda a fotojornalistas. Irving Penn, que à frente de um fundo infinito pôs de modelos de alta-costura a nômades do Saara, disse, certa vez: “Preferi tarefa mais limitada: ocupar-me somente da pessoa, longe dos incidentes de sua vida cotidiana, vestindo simplesmente suas roupas e ornamentos, isolada em meu estúdio”.

É interessante lembrar que o fundo neutro não é utilizado, quando o interesse é contextualizar o retratado. Para Rogério, o contexto não era necessário: isolados, os foliões parecem, às vezes, com esculturas. Assim, a mensagem que carregam, muito mais social do que estética, também se destaca.

Todo retrato é uma máscara mortuária, uma ilusão de que podemos deter o tempo. Todo retrato nos coloca  diante de nossa finitude. Mas estamos no carnaval e as deliciosas fotografias de Rogério Reis nos fazem viver a alegria que a vida pode nos proporcionar.

Joaquim Paiva

Rumos e sentidos de Raquel Pellicano


Em 2020, a artista brasiliense seguirá novos caminhos em Lisboa, mantendo sempre a fotografia como seu norte

O celular tocou e interrompeu a história do shitzu que se apaixonou perdidamente pela cadela vizinha. A ligação poderia ser um pedido de orçamento para algum ensaio fotográfico ou cobertura de evento, um chamado para alguma entrevista, mas era só telemarketing oferecendo pela trigésima vez no dia um novo plano de dados para o celular da “dona Raquel Pellicano”.

Do outro lado da linha, o atendente ouviu a voz mais serena daquela tarde. Raquel explicou detalhada e objetivamente porque gostaria de manter tudo como já estava e, assim que desligou, soltou um “porra, o telefone não me deixa em paz!”. Enfim contou que a cadela vizinha fugiu do cercadinho, passeou na frente de casa e encantou o Cookie. Além da estreita relação mãe e filho, precisou usar da sua persuasão incisiva e delicada para acalmar os ânimos caninos.

Que me desculpem o atendente de telemarketing e o Cookie: sinto informar mas a firmeza e a ternura devidamente equilibradas que vocês sentiram não foi exclusividade. Essa é a rotina de quem convive com a fotógrafa de 32 anos. Ainda que meu nível de convivência não chegue aos pés dos amigos de infância em Brasília, do ballet ou do IDA (Instituto de Artes da Universidade de Brasília), ouso dizer que a proximidade adquirida ao longo dos meses em que trabalhamos juntos me permite alguma boa noção.

Pressuponho que a nossa relação ganhou um novo fôlego quando Raquel, sem nem saber, quase gerou um conflito diplomático na minha família. A parte paterna do meu sangue é goiana e, orgulhosos de nascença que são, adoram pequi, um fruto típico do estado do Goias, de gosto e cheiros excêntricos. Depois de anos renegando veementemente qualquer convite da minha vó que envolvesse o tal fruto, com a Raquel eu degustei pequi pela primeira vez: num tablete de chocolate amargo artesanal com pedacinhos de pequi, é verdade. Desculpa, vó, mas aqui no trabalho tem essas coisas de comidas diferentes, requintadas, culpa da Raquel. Um dia desses te visito e a gente come um arroz com pequi no capricho.

Se no meio da tarde o cheirinho de muffin de alho poró saindo do forno do café do Espaço f/508 (o Quintal f/508) atiça todo mundo, vai chegar antes ao faro Pellicano. Ter alguma espécie de intuição olfativa especial é a única explicação para conseguir notar movimentos em qualquer canto da empresa (não só daquilo que sai do forno): se um curso novo ou o roteiro de uma Trip Fotográfica estão sendo criados, se um post no Instagram ou uma lâmpada no corredor não estão indo bem; se estão falando da série nova da Netflix ou do problema no encanamento, lá está. Nada escapa.

No estúdio fotográfico, essas sensações afloram de uma vez só. Com câmera na mão e modelo posicionada ou abajur ligado e fotos para tratar no notebook de teclado colorido, é ali que mais se sente à vontade. No Estúdio f/508, orquestra uma equipe formada por 5 mulheres, encarando e sentindo na pele os desafios de ter uma empresa 100% feminina, num país que insiste em não compreender a presença de mulheres no mercado de trabalho e empreendendo e no mundo das artes e em qualquer lugar.

Enquanto certas obviedades ainda têm que ser explicadas didaticamente, outras se deduzem facilmente. É quase automático entender que quem fez a carreira fotografando pessoas tenha tato de sobra. Transborda satisfação por todos que passaram pelas suas lentes: seja entre as jogadoras da Seleção Brasileira Feminina de Futebol ou entre capas de revistas de moda ou qualquer pessoa que gostaria de se ver numa imagem feita por alguém reconhecida por sua sensibilidade.

Não consigo afirmar qual — ou quais — desses sentidos foram responsáveis pela mudança de rumos que definiu a próxima etapa da vida a ser cumprida. Consigo determinar elementos mais práticos, como data e local: a partir de fevereiro de 2020, Lisboa será sua nova casa. Para a capital portuguesa, levará o Cookie, alguma câmera, parte do Espaço f/508 e sua delicadeza fotográfica, profissional e de todas as suas facetas.

Que os lisboetas estejam avisados: qualquer dia, a pura imagem da sinestesia desembarcará por aí.


Além das minhas próprias impressões, fiz algumas perguntas para Raquel. Aqui estão suas respostas sobre a profissão, a experiência de fotógrafa e as expectativas para mudar de continente.


Aos 32, ser reconhecida como fotógrafa, ser empreendedora, professora e artista. Ainda falta alguma coisa?
Tenho muita vontade de me dedicar a outras áreas também, como o design de jóias e a ilustração. Ainda gostaria de desenvolver a colagem e ter um trabalho de fotografia autoral mais forte.

Seguindo no ritmo da pergunta anterior: atualmente, quais fatores tornam possível ser empreendedora, professora e artista no Brasil?
Penso que seria mais fácil responder quais os fatores que tornam quase impossível. Mas problemas à parte, a vontade de produzir e viver de algo que eu gosto é um fator que impulsiona bastante esse trabalho. Também acredito que se propor a fazer as coisas sempre com carinho e esmero, atenção a cada detalhe, ajuda a propostas de negócio serem bem sucedidas. Infelizmente, o apoio a projetos culturais e artísticos se torna cada dia menor no nosso país, o que dificulta o surgimento de novas iniciativas e o subsídio de artistas.

Por quem você gostaria de ser fotografada?
Adoraria ter um retrato em polaroid pela fotógrafa Liliroze.

Para leigos, creio que seja mais fácil supor o nervosismo de quem está sendo fotografado do que imaginar a sensação de quem está ali para fotografar. Há alguma sensação que se assemelha ao início de um ensaio importante? Você tem algum ritual antes do início de mais um ensaio? Como é esse momento para você?
Acho que concentração para qualquer coisa que fazemos na vida é crucial. Enquanto meu cliente está sendo produzido e maquiado, costumo já estar presente para conhecer melhor o clima do trabalho. Gosto de trocar uma ideia e focar para estar totalmente ativa e atuante naquele momento, já que fotografar pessoas exige constante troca e diálogo. Estar à frente de um ensaio fotográfico é também se colocar sensível e aberto ao que o outro pode te proporcionar em matéria de criação imagética.

Quais foram as dificuldades do ensaio mais complicado que você já teve que fazer? 
Acredito que quando fotografamos pessoas a pressão faz parte do dia a dia, já que existe sempre grande expectativa do outro em relação a um resultado final bem sucedido. O ensaio mais tenso pra mim foi um trabalho com a seleção brasileira de futebol feminino. Elas tinham pouco tempo e disponibilidade, e eu não poderia me alongar para quebrar o gelo e tornar aquele momento leve. Minha maior frustração foi ter que ser rápida e objetiva devido ao uso final do trabalho, sem oportunidade para elaborar retratos sensíveis, com os quais me identifico mais.

A ficha já caiu que você comprou uma passagem só de ida para outro continente?
Acho que só vai cair a ficha mesmo quando eu estiver lá. Vai ser uma boa oportunidade para me reinventar também.

Além do Cookie, o que certamente não ficará de fora da sua bagagem para Portugal?
O equipamento fotográfico (naturalmente) e a nossa coleção de cabeças, que contam um tantão de histórias.

Falamos a mesma língua de Portugal e compartilhamos alguns traços culturais. Em quais pontos você já extrapola esses limites e consome cultura portuguesa?
Adoro ouvir os músicos da nova geração portuguesa. Tem muita coisa incrível que os brasileiros não consomem, com um frescor e leveza maravilhosos: Joana Espadinha, Luís Severo, Cassete Pirata… a lista é grande.

Texto e entrevista por André Porto

Festival Foto em Pauta em Tiradentes |
março de 2020


O festival

O Festival de Fotografia de Tiradentes – Foto em Pauta – celebrará a sua décima edição em 2020. Entre os dias 18 e 22 de março, a cidade será palco de diversas exposições, workshops, palestras, debates, leituras de portfólio, projeções de fotografias e atividades educativas voltadas para a comunidade local.

Reafirmando seu compromisso com a qualidade da programação, o Festival proporciona ao público ricas experiências e trocas com profissionais de renome nacional e internacional, cuja produção artística é representativa no cenário da fotografia brasileira.

Sobre a Trip f/508

A viagem acontecerá no mês de março de 2020

Saída: 19/03/2020
Retorno: 22/03/2020
Para os participantes da “Trip Tiradentes 2020″, o f/508 propõe 03 workshops:

+ Fotografia Mobile, com Camilla Rosa
+ Estéticas do Caminhar, com Monica Nassar

+ Criação de diários de viagem, com Beatriz Chaves

Oferecemos ainda, aos viajantes do projeto Trip f508, valores especiais em consultorias individuais voltadas para assuntos específicos (R$150) e 20% de desconto no Curso Básico de Fotografia.

Sobre as professoras:

Monica Nassar graduou em Arquitetura e Urbanismo no Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), em 2012. Em 2013, finalizou o Curso Profissionalizante de Fotografia, no Espaço f/508 de Fotografia, em Brasília. Atuou como Diretora de Arte, realizando campanhas para agências como F.biz, NBS, Ogilvy e África. Cursou Cenografia na Escola São Paulo, onde produziu em coletivo o projeto ViroRio, que foi exposto na Quadrienal de Praga de Cenografia e Performance, em 2015. No ano de 2017 completou a sua pós graduação em Cenografia e Figurino, na Universidade Belas Artes de São Paulo, onde produziu o aplicativo Adelaide, para mapeamentos de roteiros e gestão de projetos criativos. Em 2019, participou pela segunda vez da Quadrienal de Praga de Cenografia e Performance, na temática “novas técnicas dentro da cenografia”.

Camilla Rosa é fotógrafa comercial, com produção editorial de produto e de retrato. Trabalha com a fotógrafa Raquel Pellicano no comando do Estúdio f/508, coordenando a monitoria e a prática continuada de retrato. Com 31 anos, atua em Brasília, principalmente com nu feminino, gastronomia e tratamento de imagens, além de realizar trabalhos nas áreas de fotografia de esportes e still de produto.

Beatriz Chaves é formada em comunicação social pela Universidade de Brasília, e uma entusiasta do universo criativo. Já trabalhou como produtora em centros culturais e eventos da cidade, foi Diretora de Whatever na Perestroika – uma escola livre de atividades criativas – e hoje é gerente do Espaço f/508. Vem se reconhecendo artista visual com uma produção focada em apropriação, colagem e intervenção urbana. Participou de três exposições coletivas e uma residência artística. 

O pacote inclui

. Pré-encontro, com direcionamento em relação à bagagem, dicas e lanchinho mineiro especial
. Transfer do Aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, para a hospedagem, em Tiradentes (ida e volta)
. Hospedagem em Tiradentes
. Passeio guiados em grupo na Maria Fumaça até o complexo ferroviário São João Del Rei
. Desafios fotográficos-surpresa
. Café da manhã diário
. Workshop de Fotografia mobile
. Workshop Estéticas do Caminhar
. Workshop Diários de Viagem
. Análises de fotos e direcionamento da produção in loco
. Análise de portfólio (pós viagem)

*Passagens aéreas não inclusas

Hospedagem

Situada em um belo parque, esta pousada fica a 800 m do centro histórico de Tiradentes. Oferece piscina ao ar livre, bar e recepção 24 horas. Os quartos aconchegantes e bem-iluminados contam com vista para o jardim.

As acomodações da Pouso Alforria apresentam uma decoração com cores aconchegantes e dispõem de TV a cabo, ventilador, cofre e banheiro privativo com chuveiro.

As igrejas coloniais de Santo Antônio e Nossa Senhora das Mercês estão localizadas a 900 m da propriedade. Já a cidade histórica de São João del Rei fica a 14 km da Pouso Alforria.

Investimento

1˚ Lote: Quartos duplos: 10x de R$ 230,00 (R$ 2.300,00)
*até o dia 15 de fevereiro

2˚ Lote: Quartos duplos: 10x de R$ 265,00 (R$ 2.650,00)

Formas de pagamento
.À vista: dinheiro ou transferência bancária [10% de desconto]
.Cartão de débito
.Cartão de crédito [valor integral em até 4x]

#garimpof508 Sara Lusitano

O projeto #garimpof508 é destinado à divulgação de trabalhos de artistas e fotógrafos de língua portuguesa.

Semanalmente selecionaremos Instagrams para você conhecer e seguir, com uma breve entrevista para que todos possam saber um pouco mais de quem está por trás das obras. Essa semana garimpamos o trabalho da artista Sara Lusitano (@saralusitano)

1- Quem sou: 
O meu nome é Sara Lusitano, sou fotógrafa e sou de Lisboa, Portugal. Nunca estudei fotografia; há cerca de 2 anos e pouco comecei a tirar fotos com uma câmara analógica e foi aí que me comecei a interessar a sério pela fotografia. Desde então, fotografo sobretudo projetos pessoais, alguns dos quais foram exibidos em exposições dentro e fora de Portugal.

2- Como vou: 
Gosto sobretudo de fotografar pessoas e o corpo. Ainda estou a descobrir como conciliar dois ângulos distintos que captam o meu interesse: o corpo como algo abstracto e a vulnerabilidade. Até agora, inicialmente por coincidência mas depois propositadamente, tenho-me focado mais na vulnerabilidade masculina — acho interessante explorar esse lado do homem que é o oposto do mais típico “macho forte”.

3- Para onde vou: 
Nos meus próximos projetos vou abordar outro tema que também me interessa muito, que é a forma como olhamos para nós mesmos, a auto-percepção e como essa percepção é influenciada por pressões sociais. Também quero fazer projetos documentais, algo que nunca fiz mas que acho fascinante, especialmente quando olho para o trabalho de fotógrafas incríveis como a Sian Davey, a Laura Pannack e a Peyton Fulford.

Quer ver o seu trabalho aqui e nas redes do f/508? Use a hashtag #garimpof508 no instagram para a chance de ser selecionado 🙂

#garimpof508 Joana Mendão

O projeto #garimpof508 é destinado à divulgação de trabalhos de artistas e fotógrafos de língua portuguesa.

Semanalmente selecionaremos Instagrams para você conhecer e seguir, com uma breve entrevista para que todos possam saber um pouco mais de quem está por trás das obras. Essa semana garimpamos o trabalho da artista Joana Mendão (@joanamendao)

1. Quem sou

Sou licenciada em arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa. Ainda na faculdade comecei a fazer cenografia no grupo Rastilho e, mais tarde no Teatro do Eléctrico e no Grupo de Teatro do IST, em Lisboa.

Após frequentar workshops de gravura, técnicas de impressão e ilustração inscrevi-me na Ar.Co, no curso nocturno de Desenho e Pintura.

2. Como vou

O meu trabalho é o processo e a procura na figura humana. A expressão do corpo, o humano animal e o objecto científico. A tinta da china está sempre por perto.

3. Para onde vou

De momento continuo a desenvolver o meu trabalho e espero até ao final do ano planear uma exposição.

O Estranho Mundo de Tim Burton

Timothy Walter Burton é o primeiro dos dois filhos de Bill Burton e Jean Erickson. Burton descreveu sua infância como peculiar, imaginativa e perdida em seus próprios pensamentos. Ele achava a vida doméstica e a escola difíceis e fugia da realidade do cotidiano lendo livros sombrios de Edgard Allan Poe e assistindo a filmes de terror de baixo-orçamento.

Após o colegial, ele ganhou uma bolsa da Disney para estudar no Instituto das Artes da Califórnia em Valencia, Califórnia. Estudou animação por três anos e foi então contratado pelo Walt Disney Studios como aprendiz de animador. Trabalhou no desenho” The Fox and the Hound”, mas estava insatisfeito com a direção artística do filme. Foi durante esse período que Tim Burton fez seus primeiros três curtas metragens: a animação em stop-motion “Vincent”, e dois live-actions, “João e Maria” e “Frankenweenie”. A história desse último, que envolvia um cachorro morto num atropelamento sendo ressuscitado de forma análoga ao Frankenstein, foi considerada sombria demais pela Disney, motivo que levou à sua demissão.

Seu apego ao horror e sua habilidade para a comédia foi conciliada em “Os Fantasmas se Divertem (Beetlejuice)”. Mesmo com o orçamento bastante baixo, o filme alcançou uma bilheteria razoável e levou o Oscar de Melhor Maquiagem. Foi com esse filme que o diretor finalmente se destacou e foi chamado para realizar a superprodução: “Batman”, em 1989, que mais tarde teria a continuação “Batman — O Retorno (Batman Returns)”, também com a direção de Tim Burton. Os filmes, baseados no personagem da DC Comics, não tiveram uma boa recepção e contaram com Michael Keaton no papel do homem morcego e Jack Nicholson e Danny DeVito nos papéis dos vilões Coringa e Pinguim, respectivamente.

Beetlejuice (1988)
Batman (1989)
Batman Returns (1992)

Com a carreira em alta, o diretor resolveu filmar seu projeto pessoal intitulado “Edward Mãos de Tesoura (1990) (Edward Scissorhands)”. Para o projeto, Tim Burton chamou o ator Johnny Depp, que a partir daí, viria a colaborar com vários filmes do diretor. Edward é imutável e vive no seu mundo particular. O castelo onde foi criado por seu inventor foi inspirado nos filmes de terror de 1950. Edward Scissorhands reflete os temas comuns dos filmes de Tim. Há um estranho protagonista, temas de filmes de terror antigos, assim como o mundo gótico que contrasta com o mundo dos desenhos animados.

Edward Scissorhands (1990)

Lançado em 1993, “The Nightmare Before Christmas” foi um sucesso de bilheteria e entre os críticos. Foi o primeiro filme de animação musical feito em stop-motion. A história gira em torno de Jack Skellington, o rei da abóbora de Halloweenland. No entanto, ele se sente entediado com sua vida, por isso, quando descobre Christmastown, sequestra o Papai Noel e decide que naquele ano estaria no comando do Natal. Mais uma vez, como Pee Wee e Edward, Jack é o protagonista estranho, insatisfeito e um pouco outsider. Não se sente em casa em Halloweenland, onde ele sabe que pertence, então tenta se adaptar e se encaixar em um outro mundo. Apesar de suas intenções serem boas, como as de Edward, ele é mal compreendido como uma representação assustadora do bom velhinho. Muito parecido com a maneira como Edward foi perseguido de volta para seu castelo, Jack percebe seu lugar e retorna ao seu mundo de Halloweenland.

Em 1994, o ator foi convidado para protagonizar a cinebiografia de Ed Wood, considerado tendenciosamente como o pior diretor de todos os tempos. Em 1996, estreou nos cinemas “Marte Ataca! (Mars Attack!)”, que é uma verdadeira carta de amor aos filmes “B” de ficção científica dos anos 50. Em 1999, chegou aos cinemas a adaptação da conhecida história “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (1999 — Sleepy Hollow)”. Em “Planeta dos Macacos”, em 2001, Tim Burton readapta a obra, porém, o filme é massacrado pela crítica e fracassa nas bilheterias.

Em 2003, Tim Burton volta à forma com “Peixe Grande (Big Fish)”, sendo bastante elogiado pelos críticos. No filme, baseado no livro “Big Fish: A Novel of Mythic Proportions”, Albert Finney desempenha o papel de Edward Bloom, um antigo vendedor itinerante do sul dos Estados Unidos, que possui um dom para contar histórias e que se encontra agora limitado ao seu leito de morte. O filho afastado de Edward Bloom, um jornalista interpretado por Billy Crudup, tenta recuperar a sua relação com o pai à beira da morte, enquanto este conta contos fantásticos da sua vida. Tim Burton e Richard D. Zanuck começaram a trabalhar em “Big Fish” quando terminaram o filme “Planeta dos Macacos”, e escolheram Ewan McGregor e Albert Finney para o papel de Edward Bloom. O tema de reconciliação entre um pai à beira da morte e o seu filho tinha um significado especial para Tim Burton, uma vez que o seu pai havia falecido em 2000 e a sua mãe em 2002, um mês antes do diretor aceitar realizar o filme. “Big Fish” foi filmado no Alabama, em uma série de vinhetas que evocam o tom da fantasia gótica do sul dos Estados Unidos. O filme recebeu nomeações para vários prêmios, incluindo quatro Golden Globes, sete nomeações da British Academy of Film and Television Arts, duas nomeações para os Saturn Awards e uma nomeação para o Oscar. A trilha sonora recebeu ainda uma nomeação ao Grammy.

Big Fish (2003)

Em 2005, chegam aos cinemas dois filmes de Tim Burton: a readaptação da” Fantástica Fábrica de Chocolate”, em que o diretor evitou usar efeitos digitais tanto quanto possível. A história é baseada em um conto russo-judaico do século XIX e ambientada numa fictícia Inglaterra da era vitoriana. Filmado em Londres, possui as vozes de Johnny Depp como Victor Van Dort.

A Fantástica Fábrica de Chocolates (2005)
A Noiva Cadáver (2005)

Fechando a primeira década dos anos 2000, Tim Burton adapta o musical da Broadway “Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da Rua Fleet”, mais uma vez estrelado por Johnny Depp. Em 2010, chega aos cinemas o aguardado “Alice no País das Maravilhas”, adaptado dos livros Alice No País das Maravilhas e Alice Através do Espelho. O longa, apesar de não ter recebido boas críticas, faturou 1 bilhão de dólares, transformando-se no filme mais bem sucedido de Tim Burton.

Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da Rua Fleet (2007)
Alice no País das Maravilhas (2010)

Em 2012, o diretor nos traz mais dois filmes. O primeiro é “Sombras da Noite”, baseado na novela sessentista “Dark Shadows”, criada por Dan Curtis. O filme fracassou nas bilheterias e dividiu bastante a crítica, mas, apesar de tudo, despertou grande curiosidade no público. O segundo filme é “Frankenweenie”, que é uma refilmagem de seu curta-metragem de 1984. A nova versão é feita em stop-motion e, assim como o curta, em preto e branco.

Sombras da Noite (2012)
Frankenweenie (2012)

O embaralhamento de emoções acabou virando um traço importante do cinema do diretor americano, que circula com maestria entre o alegre, o bizarro, o engraçado, o triste, o sombrio, o macabro, o excêntrico, o fantasioso, o kitsch. Seu novo filme, “Grandes Olhos”, estreou no Brasil no dia 5 de fevereiro e conta a história de Margaret Keane, uma pintora célebre nos anos 50, enganada pelo marido, que reivindicou a autoria de suas obras. “É um filme estranho: é uma história de amor, uma comédia e fala de relações. Senti que era uma história que tinha a ver comigo”, disse Tim Burton.

A África e suas fotógrafas | parte 1


Sarah Waiswa é uma fotógrafa ugandense que atualmente mora no Quênia. Em uma sequência de tweets postada em seu perfil, intitulada “Sequência de apreciação de mulheres africanas fotógrafas”, Sarah divulgou uma série de trabalhos poderosos e valiosos.

Por aqui, replicaremos as artistas que foram apresentados nessa sequência de tweets, para dar continuidade ao movimento de promover trabalhos de qualidade e que acabam escapando dos olhares do público mainstream.


Série “Hââbré, The Last Generation”, da fotógrafa marfinense Joana Choumali.


Série “Somnyama Ngonyama — Hail the Dark Lioness”, da artista e ativista visual sul-africana trabalhando com fotografia Zanele Muholi.


Série “Fortia”, da artista angolana Keyezua.


Série “Imaginary Trip”, da fotógrafa congolesa Gosette Lubondo.


Série “The World is 9”, da fotógrafa e artista contemporânea etíope Aïda Muluneh.


Série “Education is Forbidden”, da fotógrafa nigeriana e artista Rahima Gambo.


Série “YaKalaBen”, da fotógrafa e diretora de arte guineense suíça Namsa Leuba.

A África e suas fotógrafas | parte 2


Sarah Waiswa é uma fotógrafa ugandense que atualmente mora no Quênia. Em uma sequência de tweets postada em seu perfil, intitulada “Sequência de apreciação de mulheres africanas fotógrafas”, Sarah divulgou uma série de trabalhos poderosos e valiosos.

Por aqui, replicaremos as artistas que foram apresentados nessa sequência de tweets, para dar continuidade ao movimento de promover trabalhos de qualidade e que acabam escapando dos olhares do público mainstream.

Para ver a primeira parte dessa série, clique aqui.


Série ‘Ke Lefa Laka: Her-Story.’, da fotógrafa e artista visual sul-africana Lebohang Kganye.


Série ‘Camo.’, da fotógrafa de beleza e moda queniana Thandiwe Muriu.


Série ‘This Time We Are Young.’ da fotógrafa documentarista ugandense Esther Ruth Mbabazi.


Série ‘Contrasts. da fotógrafa fine art camaronesa Angèle Etoundi Essamba.


Série ‘The Djinni Diaries.’, da fotógrafa marroquina Btihal Remli.


Série ‘L’homme en Objet.’ da fotógrafa maliana Fatoumata Diabate.

Sobre julgamentos e fotografia

Por Rodrigo F. Pereira

O ser humano é um julgador por natureza. Ao longo de um mero dia, somos estimulados por um grande número de imagens, sons, odores, textos, ideias. Para que não nos paralisemos frente a tudo isso, processamos de forma extremamente rápida os estímulos de interesse ou não. Além disso, tendemos a classificar os estímulos de acordo com categorias aprendidas durante a vida, como “agradável/desagradável”, “bonito/feio”, “útil/inútil”. Esse processamento foi essencial para a sobrevivência da nossa espécie, uma vez que guia as nossas ações em meio a qualquer tipo de ambiente de forma rápida e objetiva.

Sendo assim, quando nos deparamos com uma situação, uma pessoa ou uma ideia nova, quase instantaneamente já realizamos um julgamento, para que tenhamos base para nosso comportamento. Em geral, utilizamos as nossas experiências anteriores e encontramos — consciente ou inconscientemente — similaridades entre o atual e o passado para basear nossa avaliação. Em frações de segundo, temos toda a nova estimulação comparada com um arcabouço de vivências anteriores e categorizada, nos dando condições de reagir adequadamente. Esse processo é natural — e, em muitos casos, necessário. Imagine um dos nossos ancestrais se deparando com um animal desconhecido no meio da savana africana: ele precisava saber rapidamente se havia algum tipo de ameaça ou de utilidade para poder agir de acordo.

Há, no entanto, algumas questões que podemos fazer em relação a esse processo, considerando os dias atuais. A partir do momento em que temos consciência de como funcionamos, podemos nos observar funcionando e optar por maneiras diferentes de ser — o que alguns autores chamarão de real liberdade. Vejo três pontos fundamentais.

1. Situações novas são novas. Embora tenhamos um repertório gigantesco de experiências anteriores nas quais nos baseamos, na verdade estamos sempre agindo em função dessas experiências, e não do presente. Isso pode nem sempre funcionar, já que a situação atual é sempre única, por mais parecida que seja com aquilo que já experimentamos.

2. A categorização é falha. Embora seja útil para um julgamento rápido, geralmente a categorização que fazemos é muito simplória. Em frente a um objeto, tendemos a classificá-lo de acordo com proposições dicotômicas, como bonito ou feio, útil ou inútil. O problema é que esse tipo de classificação é muito restrita, levando-nos a avaliar as situações de forma muito rasa.

3. O julgamento em si. Julgamos para poder agir, mas nem todas as situações demandam ação, ou reação. Talvez existam momentos em que seja possível prescindir do julgamento.

Foto: Diego Valencia

Essa forma de funcionar é essencial porque não podemos passar o dia refletindo sobre cada estímulo que encontramos. No entanto, há algumas situações em que vale a pena frear esse sistema automático e buscar uma compreensão diferente. Uma delas é ao ver fotografias. Estar em frente a uma fotografia não é uma situação que demanda nenhum tipo de ação específica. Por isso, podemos nos dar ao luxo de julgar de forma diferente, ou até mesmo não julgar. Considerando os três pontos anteriores:

1. Fotografias novas são sempre novas. Se funcionamos de forma automática, tendemos a comparar a fotografia que estamos vendo no momento com fotografias parecidas que já vimos anteriormente. A nossa reação será, então, similar a que já tivemos. Desta forma, faremos sempre o mesmo julgamento, sem dar chance à nova fotografia de evocar novas ideias e concepções. Considerando que vemos centenas de imagens a cada dia, podemos perder a sensibilidade, respondendo de maneira robotizada a estímulos que poderiam nos levar a uma percepção ou experiência diferenciadas.

2.Categorias não dão conta das imagens. Transpor imagens em palavras já é uma empreitada difícil, pois as palavras são naturalmente limitantes. Embora a fotografia também tenha suas limitações, elas são de ordem totalmente diversa. Se, além de tentarmos descrever a imagem com palavras, o fazemos buscando encaixá-la em categorias, teremos nos afastado ainda mais da experiência visual que é a essência da foto. Dizer que uma foto é um retrato nos leva longe da possibilidade de tomar contato com a face da pessoa que foi fotografada.

3. Talvez não seja necessário julgar. Além dos problemas específicos do julgamento citados em textos anteriores, como O Anteparo Técnico e um comentário sobre um texto contra a interpretação da Susan Sontag, o julgamento de forma geral talvez não seja necessário. Podemos simplesmente observar a foto, aceitá-la como ela é e não emitir nenhum tipo de comentário, nem mesmo interno. Assim, é possível de fato ver. Uma alternativa possível é simplesmente observar as sensações e impressões que a foto provoca em nós, sem a preocupação de transformar isso numa ideia ou explicação. Em outras palavras, experienciar a foto em vez de julgá-la.

Este último ponto pode, talvez, ser transposto a outros aspectos da vida além da fotografia. Não é necessário, sempre, ter um julgamento rápido e simplificado para tudo, até porque não é preciso reagir a tudo a todo momento. Há situações que podem ser simplesmente vivenciadas, aceitas como elas são, sem julgamentos, análises ou classificações.

*Artigo publicado originalmente no site Câmara Obscura.

Perfil::Helena Almeida

Helena Almeida, é uma artista plástica portuguesa.

Iniciou a sua carreira no final da década de 1960 e é uma figura incontornável no panorama artístico português contemporâneo. Autora de uma obra multifacetada, sintonizada com as práticas artísticas mais avançadas da época, viria a centrar-se num território onde o seu próprio corpo é elemento nuclear.

Estado para um enriquecimento interior

Entre os vários conjuntos de trabalhos produzidos ao longo de décadas — para os quais recebeu merecido, embora tardio, reconhecimento crítico –, é difícil destacar um somente, posto que quase todos expressam um mesmo compromisso inquebrantável com o que a afeta e fascina.

“a minha obra é o meu corpo, o meu corpo é a minha obra”

Nunca houve, em seu percurso, espaço ou tempo para distrações ou concessões ao novidadeiro. Debruçar-se sobre um desses conjuntos, contudo, é também de algum modo discutir a obra toda da qual faz parte.

Fotografia da série Seduzir, de Helena Almeida, 2002

A artista representou Portugal na Bienal de Veneza por duas ocasiões: em 1982 e em 2005, e na Bienal de São Paulo, em 1979, e em 2004, participou na Bienal de Sidney.

Fonte: Calouste Gulbenkian, Revista Zum