Polémicas da Arte Contemporânea com o Tio Virso | ONLINE E EM DIRETO | 29/10

Início: 29 de outubro de 2020
Investimento: 15€+IVA
Horários: às quintas, das 22h às 24h
Total: 4 aulas
Duração: 4 semanas
Carga horária: 8 horas/aula

Pré-requisitos: nenhum
Público alvo:  o curso é aberto a todos que queiram conhecer e entender as tretas da arte contemporânea

Polémicas costumam causar onde quer que apareçam, mas sabe o que é ainda mais sensível, provocável, irritável e excitável que polémicas? Arte.

O curso será ministrado ao vivo pela plataforma Zoom.

Programa do curso

Aula 1
Polémicas teóricas: a (in)determinação da arte
1.1 O que é arte?
1.2 Quem determina o que é arte?
1.3 Quem se beneficia disso?

Aula 2
Polémicas econômicas

2.1 A farra do mercado de arte
2.2 A farra do mercado paralelo de roubos e falsificações
2.3 A farra do colecionismo que ainda vai nos destruir

Aula 3
Polémicas identitárias

3.1 O pódio e a geladeira do sistema de arte
3.2 Como o sistema de arte perpetua e aumenta a geladeira
3.3 O sistema de arte: uma geladeira conservadora e radical ao mesmo tempo

Aula 4
Polémicas políticas

4.1 Arte pelos políticos (ou alguns deles)
4.2 Arte contra os políticos (ou outros deles)
4.3 Arte pela negação da política

Professor

Vilson André Moreira Gonçalves, divulgador científico e administrador da página História da Arte com o Tio Virso, é graduado em Artes Visuais pela UEPG e doutor em Comunicação e Linguagens pela UTP. Desde 2008 trabalha como arte-educador, dedicando-se mais recentemente à democratização do conhecimento científico em história da arte nas mídias sociais.

Siga o tio Virso:
https://www.instagram.com/tiovirso
https://www.facebook.com/tiovirso

• O curso inclui certificado 

• Todas as aulas online do f/508 são gravadas e fornecidas para que o aluno possa revisitá-las quantas vezes desejar

Faça a inscrição aqui!


Investimento: 15€ + IVA
Forma de pagamento: transferência bancária

Local das aulas: Plataforma Zoom (online)

O Grito do novo normal

Por Monica Nassar

A Arte Moderna fez o ser humano sair do armário da experiência estética clássica. Ignorando a tradição, o Impressionismo é tido como o grupo mais radical, instigante, memorável e rompedor de barreiras em toda a história da arte. Não menos combatentes, os próximos rebeldes entraram em cena em seguida com toda a carga e a sinceridade do sofrimento humano, violentando a arte dos mestres pregressos, fugindo de qualquer reminiscência da beleza e da polidez. Sob a influência de artistas como Vincent Van Gogh e Paul Gauguin, Edvard Munch (1863–1944) estabeleceu os fundamentos do Expressionismo, portando dentro de si o resgate do que existe de mais ancestral em nós: a angústia.


A partir da repercussão engendrada pelas revoluções industriais que percorreram os dois séculos anteriores, em uma expansão capitalista estonteante, a mecanização do ser humano no Século XX estava enfim com as bases sólidas e em pleno progresso. A bota das nações que conseguiram sair à frente estava cravada na nuca de outros países, impondo equipamentos, instrumentos, ideologia e cultura, fortalecendo a identidade da divisão de classes e da exploração do trabalho por todo o globo. Com a dinâmica social transformando-se, a existência do homem-máquina começava a ser exigida e, de certo modo, tornou-se obrigatória para atender a expectativa e a velocidade necessárias à modernidade.

Neste cenário, os movimentos artísticos no final do Século XIX eclodiram em via de mão dupla. A estética foi construída, ali, em fonte comum que inspirava a vida em sociedade e estimulava os artistas a explorar com cada vez mais profundidade os próprios sentimentos. Diante do abandono da naturalidade da espécie comunitária, o mal-estar do ser humano abandonado na tecnologia foi uma consequência automática. Do ponto de vista artístico, o nível de questionamento dos padrões estabelecidos e do contato com o sofrimento inerente à fuga do primitivo provocaria reações nunca antes vistas.

O impacto do quadro “O Grito”, de Munch, foi em 1893 e ainda é gigantesco. A obra deixa exposta a realidade sofrida, dolorosa, frágil e violenta, a complexidade dos desafios psicológicos à espreita de cada ruptura cotidiana. O ser humano esquálido, perplexo, expõe a derrota da busca constante por um mundo que esteja em ordem. Não há porvir quando se está terrificado. O mórbido personagem principal da tela, cercado de cores fortes, está de costas para tudo que é considerado normal e interpreta o mundo e a si mesmo de forma contorcida por estar completamente conectado consigo mesmo, com o próprio desespero.

“O Grito” é de uma solidão extrema, um monólogo grotesco, invisível, surdo, ao ar livre e em local público, sem máscaras. Esta pintura, resultado de estudos incansáveis do artista, em tinta a óleo, têmpera e giz pastel sobre cartão, nos encosta profundamente na ansiedade crescente dos dias de hoje. A pandemia profana a certeza do futuro — construída nas bases da racionalidade iluminista humana, sendo esta oriunda da guinada oitocentista política, social, científica, filosófica e, de maneira especial, religiosa — e que Munch já colocava em xeque psicologicamente. A obra do norueguês evoca os horrores futuros e mal-estar humano em face da perspectiva de uma nova era, nas incertezas dos novos tempos.

Qual racionalidade tem serventia a nós agora diante de um mundo que já era considerado totalmente distorcido e que nos surpreende com níveis de imprevisibilidade reformulados a cada dia? Quais os impactos desse isolamento em ondas que temos condições de suportar? Sobreviverão as nossas relações enquanto indivíduos e nações? O que mais será exigido de nós, humanos?

Por enquanto, “O Grito” brada a solidão que se dá na ausência física por tempo indeterminado de outros seres humanos — que também estão tentando entender o próprio pesadelo — e no processo antinatural para sairmos, nem que seja virtualmente, dos escombros das grandes novidades.

Nuno Awouters | Still

Nesta série, Nuno tentou retratar em uma ficção pessoal o estado de espírito que prevalece em Portugal no século 21, descobrindo que, com as crises que o sul da Europa está vivendo, chegam velhos fantasmas de decadência que nunca foram resolvidos

As pessoas estão em modo de espera, a aguardar a chegada do rei da batalha desaparecido para resgatá-los, pela maravilha que eles ainda acreditam que acontecerá, sem esforço.

Nuno Awouters​, ​nasceu em Lisboa, conclui​u​ o curso  na Escola Superior de Teatro e Cinema.Tem exposto em Lisboa em colectivas e individuais. Tem reportagens publicadas no The portfolio project e em Reportages Photo. Divide o seu tempo entre fotografia comercial e projectos individuais.

Fonte: https://www.privatephotoreview.com/

Bate-papo: Arte, artivismo e pandemia | ONLINE E GRATUITO | 27/04

Data: 27 de abril de 2020
Horários: segunda-feira, às 22h – Horário de LISBOA

Público-alvo: artistas e entusiastas, curadorxs de arte, comunicadorxs, designers, arquitetos, museólogos e estudantes

Clique aqui para se inscrever.

. O bate-papo é gratuito e será realizado através da plataforma Zoom.
. Dúvidas? Entre em contato através do e-mail f508.lisboa@gmail.com

No dia 27 de abril, às 22h (horário de Lisboa), o f/508 Lisboa e o f/508 Brasília convidam a todos para participação na roda aberta de conversa “Arte, artivismo e pandemia”, onde Camilla Ceylão (comunicadora de causas e entusiasta) e Renata Azevedo Moreira (pesquisadora e curadora de arte) contam com a mediação de Monica Nassar (artista e sócia administradora do f/508) para um debate sobre as formas que o artivismo pode tomar em tempos de coronavírus, discutir as contribuições sociais do engajamento político da arte e de que formas a arte nos ajuda a enxergar o mundo de maneira mais crítica.


Em seus ensaios sobre Arte Relacional, Nicolas Bourriaud coloca, como uma das grandes contribuições da arte contemporânea, a perspectiva da obra de arte como agregadora e do museu como lugar de interação. Existe cumplicidade nos olhares que se doam à compreensão da obra aberta e o ato de se compartilhar o mesmo espaço/tempo se reverbera em memória restrita àqueles que puderam se fazer presentes. 

A contemporaneidade nos introduz mais um celeuma no mundo da arte: o artista, despido e liberto da técnica, que (ainda no caráter relacional) assume o compromisso com o engajamento coletivo, a complexidade das participações sociais e seus confrontos com forças governamentais e corporativas, e, na década de 60, no Brasil, autoritarismo. 

O termo “arte ativista” foi criado pelo coletivo norte americano Art Ensemble” em 1996, utilizado para definir artistas que se utilizavam de tecnologias e mídias diversas para desenvolver contribuições sociais. Mais tarde, em 2003, Juliana Monachesi publica um artigo na Folha de São Paulo chamado “A explosão do A(r)tivismo”, citando Cildo Meireles, Helio Oiticica e outros artistas. 

O aspecto relacional da arte, nesse momento, depende diametralmente dos dispositivos de comunicação. Não passa despercebida a profusão da arte politicamente engajada nos anos 90, contígua a popularização da nossa tão conhecida (e talvez mais necessária que nunca) internet. 

O ano é 2000 e esse vai ser o meu ano 20. Uma pandemia continua a se alastrar no mundo. Estamos lidando com a interdição dos pontos de encontro sociais, os famosos “nós” urbanos, e dependendo ainda mais da formatação virtual das relações. O presente carrega consigo uma série de incertezas. Estamos sem prazos para soluções e muito menos para o fim. O cenário pode ser desanimador para aqueles que ainda não perceberam que estamos moldando o que vem a seguir. Há uma latente necessidade de adaptação do “fazer”. Nós, artistas, estamos nos deparando, ainda mais enraizados na rede de computadores interligados, com a possibilidade de formatarmos os novos espaços de arte, novos engajamentos, novas participações sociais. 

HOUSTON, TX – DECEMBER 16: Conceptual artist Nadezhda Tolokonnikova (C) of Pussy Riot performs onstage during Day for Night festival on December 16, 2017 in Houston, Texas. (Photo by Rick Kern/WireImage)

Participantes

Renata Azevedo Moreira é jornalista, pesquisadora e curadora de arte. Doutoranda em Comunicação pela Universidade de Montréal, Renata estuda o diálogo estabelecido entre o gesto curatorial e a obra de arte especialmente no caso das mídias digitais. Em sua visão, o projeto artístico torna-se obra a partir das relações que estabelece com sua exposição, e a obra de arte é mais bem compreendida como um processo construído ao longo do tempo do que como um objeto singular e fixo. Além dos textos acadêmicos, Renata publica resenhas de exposições em sites e revistas de arte canadenses, como Baronmag.com e Esse Arts+opinions, participando também de comitês de programação e conselhos de administração dos centros de artistas Skol e Studio XX em Montréal. Atualmente, ela trabalha como coordenadora de comunicação e programação paralela da galeria Arts Visuels Émergents (galerieave.com).
Seu artivismo se manifesta principalmente na orientação feminista e queer de suas intervenções artísticas. Na exposição coletiva Femynynytees, realizada em 2018 em Montréal, ela convidou artistas a repensarem o que significa ser ou ter um corpo feminino em um contexto em que o sexo biológico não determina mais o gênero de uma pessoa. No mesmo ano, Renata coordenou a programação do festival feminista de novas mídias HTMlles, também em Montréal, com uma exposição coletiva na temática pós movimento #metoo chamada Beyond the Hashtag: Failures and Becomings. Em épocas de confinamento, Renata tenta manter a sanidade mental com práticas diárias de ioga e tarô entre uma página e outra da redação de sua tese – mas ela também tenta aceitar que está tudo bem não ser tão produtiva assim neste momento.

Camilla Ceylão é feminista, comunicadora de causas e entusiasta da arte e cultura. Sua trajetória profissional é diversa e inclui experiência em diferentes áreas e em todos os setores, incluindo governo, empresas e organizações da sociedade civil.
A paixão por arte e cultura a acompanha desde cedo, assim como a atuação guiada pela defesa da justiça social e dos direitos humanos. Atualmente ela trabalha com comunicação de causas em uma OSC, a Nossa Causa, e é responsável pelo marketing de uma agência movida por causas sociais, a BeCause. 
Camilla descobriu o termo artivismo quando um artista a identificou como “artivista” após ouvir sua apresentação. Desde então, ela passou entender melhor a conexão entre seu trabalho e seu hobbies – entre comunicação, política e arte. 
Ela ainda não se considera uma artivista, mas se sente lisonjeada por ter sido reconhecida como tal.

Mediadora

Graduada em arquitetura e Urbanismo no Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), cursou Cenografia na Escola São Paulo, onde produziu em coletivo o projeto ViroRio, exposto na Quadrienal de Praga de Cenografia e Performance, em 2015. Participou da equipe de pesquisa da exposição do multiartista Tadeu Jungle na Sala do Humano do Museu do Amanhã. Usou suas habilidades multidisciplinares para compor equipes nas mesas independentes da Mesa e Cadeira, trabalhando com os ciborgues Neil Harbisson e Moon Ribas na construção do WeTooth, o primeiro aparelho de comunicação intra-dental do mundo (contemplado no Guinness World Records 2020), em 2016 e com o fundados do Kickstarter, Perry Chen, na publicação do livro “A bridge to a bad star” sobre o desastre de da base espacial de Alcântara, no Maranhão. Completou uma pós graduação em Cenografia e Figurino, na Universidade Belas Artes de São Paulo, onde produziu o aplicativo Adelaide, para mapeamentos de roteiros e gestão de projetos criativos. Em 2019, participou pela segunda vez da Quadrienal de Praga de Cenografia e Performance, na temática “novas técnicas dentro da cenografia”.


#garimpof508 Marta Ferreira

O projeto #garimpof508 é destinado à divulgação de trabalhos de artistas e fotógrafos de língua portuguesa.

Selecionaremos Instagrams para você conhecer e seguir, com uma breve entrevista para que todos possam saber um pouco mais de quem está por trás das obras. Essa semana garimpamos o trabalho da artista Marta Ferreira (@martanferreira)

1- Quem sou: 

Nasci junto ao mar, em Cascais, e emancipei-me rumando para terras montanhosas.

Designer de profissão, lecionei Artes e voltei a Lisboa para aprender, altura em que surgiu a oportunidade de entrar no atelier que integro desde 2004.

Design e fotografia misturam-se no meu percurso de vida. Aderi ao instagram em 2014 e, desde então, tenho marcado os meus registos por uma simplificação da narrativa visual. Pelo caminho surgiu a oportunidade de colaborar com marcas e entidades como a Fujifilm, Museu Berardo, Escada, Issey Miyake e Volkswagen.

Recebi o prémio de melhor mural na gala InstiesGerador 2018 e em 2019 voltei a subir ao palco eleita a melhor instagrammer de Portugal, prémio que abriu as portas à minha primeira exposição individual.

Como vou – Filtros e temáticas prediletas

Apreender o espaço arquitectónico e dar-lhe novos contornos narrativos é uma constante nos meus registos. Existem neles metáforas sobre a forma como habitamos e nos relacionamos com o mundo, como deixamos uma marca por onde passamos e como somos mínimos num mundo que tomamos como nosso.

Processed with VSCO with al1 preset

Para onde vou – Projetos e objetivos futuros

Não traço metas, 2020 será sempre marcado como o ano do aqui e agora, os planos foram atropelados pela voracidade dos dias. Continuarei a abraçar desafios e a avançar para o desconhecido.

”A cidade se perde nas ausências…”

Uma representação do vazio e do silêncio, por Márcio Borsoi

Sair à noite pela cidade minimiza esse confinamento necessário. Tempo sombrio.

As pessoas não têm mais rostos, somos todos iguais cobertos de branco, um branco imaculado, mas mortal e eu no meu automóvel me sinto protegido.Ilusão traiçoeira.


Penso em Hopper e sigo em frente.

Nasci no Rio de Janeiro e moro em Brasília.

O começo na fotografia foi na década de 70, ainda como estudante de arquitetura. Após um longo período de abandono onde me formei administrador, retorno em 2009 para a fotografia principalmente de arquitetura de interiores.

Atualmente me dedico a fotografia autoral, tenho trabalhos selecionados em Festivais, livros e exposições, individuais  e coletivas, no Brasil e no exterior.

Sou urbano e um observador do cotidiano, o banal das cidades me atrai e uma fotografia com elementos naturais e orgânicos me apraz.

Fotografar é um ato poético e o minimalismo recorrente, “O menos é mais”. 

Minha formação na fotografia vem de Workshops e cursos de História da Arte, estudos teóricos e das obras dos fotógrafos que são minhas referências.

Site

Instagram: @marcioborsoi

Francisco Proner, Brasil [brazilian documental photography]

F​rancisco é um fotógrafo de​ ​20 anos​, curitibano, que ​atua no Rio de Janeiro​.
No ano de 2015 embarcou em uma expedição ao redor do mundo de carro, viajando por 3 continentes. Em 2016​, ​publicou sua história “Lagrimas Secas” na seção de artigos da National Geographic.​ Colabor​ou​ com as redes NINJA Media e “Jornalistas Livres” durante a cobertura de protestos e a crise política no Brasil. 

Em 2017, completou o curso de Dramaturgia e Redação Documental na Escola Internacional de Cinema e Televisão (EICTV)​,​ em Cuba. No mesmo ano, foi convidado para o programa de estudantes Canon e Magnum Photos durante o festival de fotojornalismo Visa Pour L’Image. 

Em 2018, durante a cobertura do processo envolvendo o ex-presidente Lula, Francisco viajou pelo Brasil seguindo os movimentos políticos, ganhando destaque após uma foto do dia da prisão de Lula. A foto foi publicada em vários meios de grande relevância internacional, entre os quais o New York Times, The Guardian, Le Monde e El País. 
No mesmo ano começou a desenvolver e organizar o projeto Anomia, trabalho de longo prazo ainda em andamento. Em 2019, Francisco concluiu o ensaio Sierra Maestra (desenvolvido desde 2017 em Havana, Cuba). 

Membro da agência FARPA.​ 


https://www.franciscoproner.com/
​Instagram: franciscoproner

Garimpo | Ana Frois

O projeto #garimpof508 é destinado à divulgação de trabalhos de artistas e fotógrafos de língua portuguesa.

Semanalmente selecionaremos Instagrans para você conhecer e seguir, com uma entrevista pra que todos possam saber um pouco mais de quem está por trás das fotos. Essa semana garimpamos o trabalho da artista Ana Frois (@ana.frois).

  1. Quem sou:

Ana Frois, Coimbra. Licenciatura em Arquitectura pelo DARQ/FCTUC (1998). Pós-Graduação em “Estudos Avançados em Arquitectura, Território e Memória” pelo DARQ/FCTUC (2005).

Desde 2013, e depois de mais de uma década a trabalhar em arquitectura, tenho desenvolvido um trabalho no campo do desenho e imagem. No meu trabalho estão presentes os temas da casa e da natureza transformada e do registo da passagem do tempo.

2. Como vou:

“Nothing like something happens everywhere”

Time is the Tiger, Março, 2019


3. Para onde vou:

Neste momento estou a trabalhar num projecto chamado À escuta: a cidade sonora que cruza o som e a imagem através de um percurso pela cidade. Este projecto está inserido no evento “Dar a ouvir.

Estou também a trabalhar num projecto que se vai chamar Biblioteca.

www.anafrois.com

www.instagram.com/ana.frois/

A fada de Sintra | Editorial

Fotografia: Raquel Pellicano (Estúdio f508)
Modelo: Isabela Gomes
Styling: Rachel Smidt
Maquiagem: Talita Sá

A Lenda da Gruta da fada é uma Lenda de Sintra, que já o sendo acaba por ser um mito em si. O que é capaz de tornar essa lenda em mito, é o facto de as poucas linhas existentes que a tornam numa Lenda de Sintra, subsistem no tempo e no espaço, sem que a mesma se alargue.

  Publicada pela primeira vez no jornal / revista Cyntra, número 6 de 1912, de acordo com Manuel Gandra, a Lenda da Gruta da Fada deu azo a que fosse quase sempre confundida com a Gruta do Monge no Parque da Pena.

  A lenda em si, é tão pouco esclarecedora tal a sua localização. Refere que nessa gruta, uma inominada fada, vai sempre sem razão que se conheça, todas as noites chorar o seu destino que desconhecido é também na lenda. Uma estranha curta narrativa, que perdura até aos dias de hoje, e provavelmente perdurará, de tão fantasiosa que se torna ao conter tão poucos factos.

“Gruta formada por uma imensa rocha de granito, apoiada em dois rochedos que a flanqueiam. Diz a lenda que uma fada todas as noites, cerca da meia-noite, ali vai carpir o seu destino. A referida gruta fica na entrada da Pena, à esquerda de quem sobe, quase ao chegar ao portão principal do Parque da Pena.”–

© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra

Em breve, teremos inscrições abertas para o curso de fotografia de Retrato e Moda, com a fotógrafa Raquel Pellicano. Saiba mais: https://www.f508.pt/2019/03/23/retrato-e-moda/

Os Personagens Reflexivos de Gus Van Sant

Gus Van Sant nasceu em 1952, em Louisville, EUA. Formou-se pelo Rhode Island School of Design e, lá, foi influenciado pela pintura e pelo cinema experimental. Em 1981, filmou, com baixíssimo orçamento, “Alice in Hollywood”, que nunca foi lançado. Trabalhou para uma agência de publicidade para ganhar dinheiro. Com o que ganhou, dirigiu o filme independente “Mala Noche”, em 1985, que foi bem recebido pelos críticos e foi nomeado melhor filme independente do ano pela Los Angeles Film Critics Association. “Mala Noche”, um polêmico petardo em p&b, sobre o amor idílico entre um clandestino mexicano e um norte-americano no meio-oeste, foi remasterizado digitalmente e relançado no formato DVD em 2006, em Cannes, vindo a ganhar status de cult entre os cinéfilos.

Gus Van Sant tem uma maneira singular de filmar. É talvez o único, senão um dos poucos na indústria cinematográfica mundial, a se apropriar de um estilo autoral raramente bem dosado entre o underground e a cultura de massa. Gay assumido, o cineasta norte-americano, de 55 anos, mantém-se como um dos mais atuantes de sua geração, lançando pelo menos um filme a cada dois anos. Marcado por obras de temática homossexual, o diretor está ainda mais maduro e refinado, porém sem deixar arrefecer sua verve poética. O interesse pelo submundo e a cultura que emerge dos esgotos, ruas e esquinas povoadas por gente de índole qualquer — leiam-se bêbados, maltrapilhos, clandestinos, jovens órfãos, garotos de programa e toxicômanos — é um aspecto mais que latente na filmografia de Van Sant, sobretudo em suas primeiras produções, da década de 1980 e início de 1990. Qualquer semelhança com a beat generation, à qual se filia como legítimo herdeiro, não é mera coincidência. Em fevereiro de 2011, estreou na Gagosian Gallery, em Beverly Hills, uma exposição com 12 horas de material inédito do filme “My Own Private Idaho”, incluindo cenas deletadas, cenas alternativas e bastidores.

Mala Noche (1985)

Segundo longa de Gus Van Sant, e primeiro filme realmente importante de sua carreira, “Drugstore Cowboy”, de 1989,começa com a narração em off de Bob Hughes (Matt Dillon), que está sendo transportado numa ambulância. É um começo semelhante aos de outros filmes de Van, ou seja, com o protagonista se apresentando num fato já consumado e iniciando a explicação de como chegou até ali — o que não implica começar exatamente do começo. O salto para trás que sua narração propõe transporta o filme para um dia em que o personagem e seu bando roubam uma farmácia de forma eficientemente teatral. Lá pela metade do filme, há um plano extremamente simples que define a sua primeira parte — e o que era a vida de Bob até então: ele vem andando cambaleante e, do outro lado, aproxima-se um guarda. Em sua trajetória tortuosa, Bob vive esbarrando nas autoridades — e embora sempre acabe dando um jeito de fugir delas, chega um momento em que decide que é hora de parar. O personagem não muda de vida por ter sido tomado por culpa e má consciência, simplesmente acredita que sua sorte acabou, além de ter cansado de viver fugindo da polícia. Se o que integra a obra de Gus Van Sant é a demonstração de jovens em busca de um lugar, independente de ser na sociedade ou à sua margem, aqui assistimos a um rapaz que abandona a criminalidade para ter um emprego fixo, pagar o aluguel de um quartinho, viver como homem médio, deixar para trás o jeito impulsivo com que começara o filme e se tornar um cidadão pacato. Nessa segunda parte, Van Sant filma a mecanicidade do trabalho conseguido por Bob numa fábrica — praticamente como filmara o ritual das drogas, com o mesmo cuidado formal e a mesma predileção por detalhes. Como tal opção estética deixa claro, os homens adquirem hábitos — e hábitos, não importando quais sejam, podem ou não se tornar vícios funestos. Outra referência estética importante é o surrealismo (mais até das artes plásticas que do cinema), presente principalmente nas cenas das alucinações de Bob. Não bastassem algumas imagens remeterem ao visual surrealista, em um determinado momento o personagem de Matt Dillon ainda discorre sobre estar diante do espelho e enxergar as próprias costas, possível alusão a um famoso quadro de Magritte. Recebeu prêmio no Festival de Berlim e na Independent Spirit Award como Melhor Roteiro, (Gus Van Sant e Daniel Yost), Melhor Fotografia (Robert D. Yeoman), Melhor Ator Principal (Matt Dillon) e Melhor Ator Coadjuvante (Max Perlich).

Drugstore Cowboy (1989)

Em “Garotos de Programa” (My Own Private Idaho), de 1991, Mike é o jovem cuja alma parece residir exatamente na estrada de Idaho, onde ele se encontra no início do filme. Um vasto caminho aberto entre pradarias que se estendem até o horizonte. Um não-lugar, espaço paradoxal, ao mesmo tempo pura passagem e rota em uma mitologia da conquista, filmado por Gus Van Sant como um espaço de absoluta imobilidade, onde as motos morrem e onde Mike é capaz de deitar, dormir e imaginar uma casa no centro do universo. Nesta paisagem apreendida afetivamente (“my own private Idaho”), somos imersos, para transitar livremente pelo universo emotivo de Mike. “Have a nice day”. A epígrafe de “Garotos de Programa” é também o mote que ecoa no perambular de Scott e Mike, repleto de vivências efêmeras e esparsas; de inesperados encontros e rumos imprevisíveis. E a trajetória destes personagens — ou o que conhecemos dela — é, para Van Sant, uma questão de estudo de atmosfera. Atmosfera do submundo de Portland, das estradas de Idaho, da memória, de uma amizade. Nesta “meteorologia”, a observação do céu, das paisagens, das mudanças de clima, torna-se questão cinematográfica. O sol, o vento, as nuvens, as tempestades, os relâmpagos, são manifestações em sintonia com as variações humanas, que o cinema pode melhor compreender quanto mais afinado estiver com este etéreo captado pela câmera.

My Own Private Idaho (1991)

Adaptação de romance de Joyce Maynard por Buck Henry (roteirista de “A Primeira Noite de Um Homem”), “To Die For” (Um Sonho Sem Limites), lançado em 1995, segue a trajetória da ambiciosa e nada ética Suzanne Stone (Nicole Kidman), que não mede esforços para atingir seu objetivo de tornar-se uma famosa apresentadora de TV. O filme é construído através das visões pessoais que os demais personagens fazem da protagonista. O sensacionalismo parece, segundo o longa, ser praticamente o determinante do inconsciente de significativa parcela da população americana: “É na TV que aprendemos quem realmente somos”, afirma Suzanne. É através deste telejornalismo marrom que Suzanne se tornará finalmente uma celebridade nacional, mas não como a repórter ou apresentadora, e sim como a protagonista de mais uma história sangrenta, ao ser acusada do assassinato de seu marido, o ingênuo Larry Maretto (Matt Dillon). Gus Van Sant faz aqui uma sutil comédia de humor negro, delineada desde a bem bolada sequência de abertura, e que irá culminar na ironia ímpar dos momentos finais. O filme ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia/Musical (Nicole Kidman) e foi nomeado para o BAFTA de Melhor Atriz.

To Die For (1995)

Já em “Good Will Hunting” (Um Gênio Indomável), de 1997, o jovem rebelde Will (interpretado por Matt Damon), que já teve algumas passagens pela polícia, trabalha como servente em uma universidade de Boston e revela-se um gênio da matemática quando o professor Lambeau desafia os alunos a resolverem um teorema. Will consegue resolvê-lo. Mas depois de se meter em encrencas, por conta de sua personalidade explosiva, é preso e, por determinação legal, precisa fazer terapia e ter aulas de matemática com Lambeau. Mas nada funciona — pois ele debocha de todos os analistas — até que se identifica com um deles, Sean, interpretado por Robin Williams. Ao longo da história de “Um Gênio Indomável”, fica claro o que Van Sant propõe: uma viagem pelos caminhos tortuosos, complexos e contraditórios da mente dos seus dois personagens principais. O longa levou o Oscar nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante (Robin Williams) e Melhor Roteiro Original (Matt Damon e Ben Affleck), além do Globo de Ouro como Melhor Roteiro.

Good Will Hunting (1997)

Em 1998, Gus Van Sant faz uma refilmagem do clássico de Hitchcock “Psicose” (Psycho). A primeira parte concentra-se na estrutura narrativa. “Psicose” é um filme com idas e vindas na história e personagens interessantes. Tem um ritmo diferente, mais pausado e deliberado, até porque segue as marcações de Hitchcock. O longa segue a trama original e brinca com o visual de forma criativa. Na verdade, Van Sant, equipe e elenco parecem estar se divertindo o tempo todo. A fotografia do filme é a melhor do ano de 1998 em Hollywood. Christopher Doyle usa de efeitos, sensibilidades fílmicas e filtros para dar ao longa um tom de filme preto e branco colorizado por computador — já brincando com a ideia do remake. Van Sant completa a homenagem com a mise-en-scène e o cuidado com a arte, onde tudo parece retrô, mas o filme se assume como 1998, criando um clima estranho de deslocamento temporal. Para completar, os atores se divertem imensamente, desde Vince Vaughan criando um Norman Bates gay, passando pela deusa Julianne Moore, até os ótimos atores Anne Heche (uma genial Marion Crane) e William H. Macy.

Psycho (1998)

A primeira imagem depois dos créditos já nos ensina: em traveling, com a proximidade de um plano detalhe, sempre perto demais, vemos uma pilha de livros (conseguimos ver Tchekov, Kierkegaard, Joyce, entre outros) e, em seguida, a câmera desliza pelo corpo do jovem negro até chegar em seu rosto. A aposta está lançada desde cedo: nesse filme, trata-se, antes de tudo, de filmar “de perto”, de, justamente pela proximidade, tentar filmar o ponto de ebulição, o momento em que brota o talento de um garoto de 16 anos no Bronx que, além de ser brilhante jogador de basquete, tem dons literários acima da média. Este é o contexto de “Finding Forrester” (Encontrando Forrester), lançado em 2000. Jamal emerge como antípoda da juventude endinheirada. Criado na rua, trabalha ao mesmo tempo em duas frentes diferentes — e tenta mantê-las o mais afastadas possível. De um lado, a vida com seus amigos, no basquete e com um desempenho propositalmente mediano na escola. De outro, a vida silenciosa dos livros que lê (toda a literatura americana) e das palavras que escreve em pequenos cadernos vermelhos. A economia desse sistema, até então muito bem articulado, é posta em crise quando dois acontecimentos singulares chegam à vida de Jamal: um bem-sucedido teste de inteligência chama a atenção de uma rica escola particular, que dará a ele uma bolsa se ele jogar basquete; e uma incidental visita ao apartamento de um mito das redondezas, um homem recluso que penetra na imaginação dos jovens locais. Jamal descobre, assim, um intelectual, que se revelará mais tarde como sendo o escritor William Forrester, que escreveu sua obra-prima logo cedo e que, depois, abandonou a vida pública e a literatura.

Finding Forrester (2000)

Em “Garry”, de 2002, Gus Van Sant assume influências de Bela Tarr, Chantal Akerman e Antonioni a Sharunas Bartas. Van Sant cria uma obra que é puro cinema. Dois jovens companheiros, ambos chamados Gerry, fazem uma caminhada com objetivo misterioso seguindo um trilho selvagem. Após algum tempo de marcha, acabam por se desinteressar pela “coisa” que procuravam e decidem voltar para trás, mas logo percebem que estão perdidos num terreno hostil. Os limites do quadro e do tempo de cada plano são explorados constantemente (desde o primeiro plano, aliás), e a utilização da paisagem natural como fonte de encantamento (do espectador, principalmente) e opressão encontra paralelos no cinema atual.

Garry (2002)

O enredo de “Elephant”, de 2003, ocorre em dia aparentemente comum na vida de um grupo de adolescentes, todos estudantes de uma escola secundária de Portland, no estado de Oregon, costa oeste dos Estados Unidos. Enquanto a maior parte está engajada em atividades cotidianas, dois alunos esperam, em casa, a chegada de uma metralhadora semi-automática, com altíssima precisão e poder de fogo. Munidos de um arsenal de outras armas que vinham colecionando, os dois partem para a escola, onde serão protagonistas de uma grande tragédia. O filme foi inspirado no Massacre de Columbine, em que um estudante de 17 anos atirou em vários colegas e professores. A inspiração para o título do filme veio em um documentário homônimo de Alan Clarke, de 1989, que se passa em período e local (Irlanda do Norte) diferentes, mas que também trata da violência entre os jovens através de uma narrativa picotada. Apesar de Clarke ter assim nomeado seu filme por julgar o problema abordado “tão facilmente ignorável quanto um elefante na sala de estar”, Van Sant inicialmente achou que o título se referia a uma antiga parábola budista sobre um grupo de cegos examinando diferentes partes de um elefante. Nessa parábola, cada cego afirma convictamente que compreende a natureza do animal com base tão-somente na parte que lhe chega ao tato. Ninguém vê ou sente o objeto na sua totalidade, mas todos arriscam um palpite totalizante — e, naturalmente, equivocado. Mesmo após ter descoberto o verdadeiro motivo pelo qual o documentário de Alan Clarke se chama “Elephant”, Van Sant afirma que o seu filme, rodado numa escola situada em Portland, tem mais a ver com a parábola dos cegos. Antes de pôr qualquer coisa no papel, o cineasta quis ouvir o que tinham a dizer os estudantes da escola onde “Elefante” foi filmado. O roteiro final nasceu mais desse contato com o ambiente escolhido para rodar o filme do que das ideias originais do projeto. O que Van Sant construiu no longa foi uma visão fragmentada, e não conclusiva, sobre a altamente complexa questão trazida à tona pelo episódio sangrento de Columbine. Consagrado por saber filmar os jovens sem deturpar seu universo, o diretor adotou um posicionamento inequívoco, aquele de onde se vê tudo e nada ao mesmo tempo: o olho do furacão, o epicentro do evento trágico.

Elephant (2003)

“Last Days” relata os demônios interiores que atormetam um jovem músico talentoso, mas perturbado, nas últimas horas de sua existência. Blake (Michael Pitt) é um artista introspectivo, prostrado pelo peso do sucesso, que o conduziu a uma solidão sem fim. Refugiado numa casa no meio de um bosque, tenta fugir da sua vida, das pessoas que o rodeiam, dos amigos que o procuram para pedir favores ou dinheiro, e das suas obrigações. “Last Days” segue Blake nas suas últimas horas, um fugitivo da sua própria vida. O filme, lançado em 2005, é sobre as últimas horas de uma estrela do rock, dedicado ao maior ícone do movimento grunge, Kurt Cobain.

Last Days (2005)

“Paris, je t’aime” foi uma obra dirigida por vários cineastas e lançada em 2006, e Gus Van Sant foi um dos 18 diretores que participaram. Logo em seguida, em 2007, Sant lança “Paranoid Park”, em que um jovem de 16 anos, Alex, decide ir sozinho a um parque que é o paraíso dos skatistas (Paranoid Park), onde é chamado para uma “volta de trem” por Scratch. Enquanto os dois se penduram no vagão de um trem, um guarda da estação tenta afugentá-los com sua lanterna. Alex tenta afugentá-lo com seu skate, o guarda cai de costas nos trilhos paralelos e é cortado ao meio por outro trem. Atormentado, Alex tenta se livrar de seu skate e suas roupas, mas a polícia acaba por descobrir que o acidente fora causado por um skatista. Aconselhado por uma amiga, Alex escreve uma carta sobre o incidente, também contando sobre os dias precedentes e posteriores. A trama segue a carta. “Paranoid Park” é um filme sem chão, sem teto. Os personagens do filme são adolescentes que vivem sobre seus skates, logo acima do chão, abaixo do teto — ou entre o céu e a terra. O espaço-imagem que Gus Van Sant cria para eles se dá justamente aí, um pequeno vôo em slow motion, como na cena em que vemos, um a um, os skatistas passando diante da câmera. O último deles erra a manobra e cai. Um corpo em suspensão, uma fatalidade, uma queda. O protagonista Alex (mesmo nome de um dos atiradores de “Elefante”) escreve uma carta contando o que lhe aconteceu, e a narrativa do filme segue o relato caótico que vem direto de sua mente, como lampejos da consciência. Estamos colados ao ponto de vista do personagem, e não mais às operações do dispositivo (como era em Elefante e Last Days). A exploração de um universo mental do personagem lembra os filmes anteriores a Gerry — em particular, Drugstore Cowboy, Garotos de Programa e Gênio Indomável.

Paranoid Park (2007)

Milk (2008), um cara carismático e bem-humorado, muda-se de Nova York para São Francisco em 1972, onde planejava com o namorado abrir uma loja de fotografia na rua Castro, onde à época os gays não eram bem recebidos. Milk resiste e, em pouco tempo, todo o bairro Castro torna-se referência na luta pelos direitos dos homossexuais. A luta de Milk o transformou em um líder político, comandando campanhas nacionais pelos direitos dos gays, recebendo inclusive apoios conservadores, como do então aspirante à presidência Ronald Reagan. A recriação personalíssima de parte da biografia de Harvey Milk representa para Van Sant muito mais do que a mera filiação a uma causa (o movimento gay) ou uma simples asserção política (a necessidade de lutar pelos direitos das minorias). O percurso do personagem tal como acompanhamos é o de um indivíduo nos anos mais intensos de sua vida, em que estar no seio de uma efervescente vivência coletiva corresponde a ocupar fundamentalmente o epicentro de um momento histórico. Colocar a História, com datas e referências concretas, no coração deste filme é, portanto, relembrar àqueles que tenham por ventura esquecido que filmar a “flutuação” de corpos no espaço sempre foi para ele uma ferramenta formal para ressaltar a gravidade a que os homens estão submetidos.

Milk (2008)

No longa Restless (Inquietos), de 2011, nos deparamos com figuras na eminência da morte, seja como um trauma passado ou uma inevitabilidade futura: Enoch (Henry Hopper) esteve morto por três minutos, e Annabel (Mia Wasikowska) sofre de câncer terminal e morrerá dentro de três meses. Os dois têm uma relação íntima com a morte a ponto de a terem tornado um elemento presente em seus cotidianos de brincadeiras infantis: eles se conhecem “de penetra” num enterro. O tom de “Inquietos”, que por vezes evoca um olhar infantil sobre o mundo ou um melodrama adolescente, não consegue embalar inteiramente numa perspectiva inocente porque, tal como, por exemplo, no universo de Hayao Miyazaki, logo se recorda que, por trás da magia da criança, a morte espreita e condena seus personagens. No filme, esta consciência gera situações ao mesmo tempo idílicas e de um humor negro afável.

Restless (2011)

Em Terra Prometida (Promised Land), de 2012, se há ainda planos-sequência aqui e ali, predomina a dinâmica dos planos curtos, com a câmera indo de um ângulo para outro, alterando a distância em relação aos corpos, balançando freqüentemente, a refletir os cataclismas do território onde está, os acidentes do solo, o movimento de um olhar que pisca e se move com velocidade, tentando cobrir todos os campos da visão. A opção pelo excesso de cortes e pela câmera na mão pressupõe vínculo com o neo-naturalismo da moda, cuja operação estética visa a produzir a aparência de um telejornal ao vivo já todo decupado, ou de um reality show com câmera na mão e já montado na própria filmagem. Steve Butler (Matt Damon) trabalha numa empresa especializada em extração de gás. Um dia, lhe é solicitado que viaje até uma cidade do interior para convencer os moradores da região que eles não devem se opor à chegada da empresa extratora. Porém, ao lidar diariamente com as pessoas, Steve acaba questionando suas próprias convicções.

Promised Land (2012)

“See of Tree”, sua obra mais recente, ainda sem previsão de lançamento, mostra a floresta Aokigahara, conhecida também como “Sea of Trees”, localizada aos pés do Monte Fuji, no Japão, e famosa por ter um alto índice de suicídios. Dois homens, o americano Arthur Brennan (Matthew McConaughey) e o japonês Takumi Nakamura (Ken Watanabe), vão até lá com este pensamento, mas acabam iniciando uma jornada de reflexão e sobrevivência mata adentro.

Em seus trabalhos, Van Sant consegue transmitir, como poucos, o grau de urgência, a ambigüidade e os arroubos de euforia e pesadelos da fase juvenil. O diretor capta o espírito jovem por meio de uma lupa generosa e destemida, com pinceladas intensas de poesia beat. Em duas décadas, Gus Van Sant já elaborou, praticamente, um dossiê da juventude norte-americana pós-moderna, multifacetada em suas várias “tribos” urbanas. Seus filmes são carregados de reflexão, em que seus personagens frequentemente passam por momentos de indagação e amadurecimento.