O Grito do novo normal

Por Monica Nassar

A Arte Moderna fez o ser humano sair do armário da experiência estética clássica. Ignorando a tradição, o Impressionismo é tido como o grupo mais radical, instigante, memorável e rompedor de barreiras em toda a história da arte. Não menos combatentes, os próximos rebeldes entraram em cena em seguida com toda a carga e a sinceridade do sofrimento humano, violentando a arte dos mestres pregressos, fugindo de qualquer reminiscência da beleza e da polidez. Sob a influência de artistas como Vincent Van Gogh e Paul Gauguin, Edvard Munch (1863–1944) estabeleceu os fundamentos do Expressionismo, portando dentro de si o resgate do que existe de mais ancestral em nós: a angústia.


A partir da repercussão engendrada pelas revoluções industriais que percorreram os dois séculos anteriores, em uma expansão capitalista estonteante, a mecanização do ser humano no Século XX estava enfim com as bases sólidas e em pleno progresso. A bota das nações que conseguiram sair à frente estava cravada na nuca de outros países, impondo equipamentos, instrumentos, ideologia e cultura, fortalecendo a identidade da divisão de classes e da exploração do trabalho por todo o globo. Com a dinâmica social transformando-se, a existência do homem-máquina começava a ser exigida e, de certo modo, tornou-se obrigatória para atender a expectativa e a velocidade necessárias à modernidade.

Neste cenário, os movimentos artísticos no final do Século XIX eclodiram em via de mão dupla. A estética foi construída, ali, em fonte comum que inspirava a vida em sociedade e estimulava os artistas a explorar com cada vez mais profundidade os próprios sentimentos. Diante do abandono da naturalidade da espécie comunitária, o mal-estar do ser humano abandonado na tecnologia foi uma consequência automática. Do ponto de vista artístico, o nível de questionamento dos padrões estabelecidos e do contato com o sofrimento inerente à fuga do primitivo provocaria reações nunca antes vistas.

O impacto do quadro “O Grito”, de Munch, foi em 1893 e ainda é gigantesco. A obra deixa exposta a realidade sofrida, dolorosa, frágil e violenta, a complexidade dos desafios psicológicos à espreita de cada ruptura cotidiana. O ser humano esquálido, perplexo, expõe a derrota da busca constante por um mundo que esteja em ordem. Não há porvir quando se está terrificado. O mórbido personagem principal da tela, cercado de cores fortes, está de costas para tudo que é considerado normal e interpreta o mundo e a si mesmo de forma contorcida por estar completamente conectado consigo mesmo, com o próprio desespero.

“O Grito” é de uma solidão extrema, um monólogo grotesco, invisível, surdo, ao ar livre e em local público, sem máscaras. Esta pintura, resultado de estudos incansáveis do artista, em tinta a óleo, têmpera e giz pastel sobre cartão, nos encosta profundamente na ansiedade crescente dos dias de hoje. A pandemia profana a certeza do futuro — construída nas bases da racionalidade iluminista humana, sendo esta oriunda da guinada oitocentista política, social, científica, filosófica e, de maneira especial, religiosa — e que Munch já colocava em xeque psicologicamente. A obra do norueguês evoca os horrores futuros e mal-estar humano em face da perspectiva de uma nova era, nas incertezas dos novos tempos.

Qual racionalidade tem serventia a nós agora diante de um mundo que já era considerado totalmente distorcido e que nos surpreende com níveis de imprevisibilidade reformulados a cada dia? Quais os impactos desse isolamento em ondas que temos condições de suportar? Sobreviverão as nossas relações enquanto indivíduos e nações? O que mais será exigido de nós, humanos?

Por enquanto, “O Grito” brada a solidão que se dá na ausência física por tempo indeterminado de outros seres humanos — que também estão tentando entender o próprio pesadelo — e no processo antinatural para sairmos, nem que seja virtualmente, dos escombros das grandes novidades.

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