#garimpof508 Marta Ferreira

O projeto #garimpof508 é destinado à divulgação de trabalhos de artistas e fotógrafos de língua portuguesa.

Selecionaremos Instagrams para você conhecer e seguir, com uma breve entrevista para que todos possam saber um pouco mais de quem está por trás das obras. Essa semana garimpamos o trabalho da artista Marta Ferreira (@martanferreira)

1- Quem sou: 

Nasci junto ao mar, em Cascais, e emancipei-me rumando para terras montanhosas.

Designer de profissão, lecionei Artes e voltei a Lisboa para aprender, altura em que surgiu a oportunidade de entrar no atelier que integro desde 2004.

Design e fotografia misturam-se no meu percurso de vida. Aderi ao instagram em 2014 e, desde então, tenho marcado os meus registos por uma simplificação da narrativa visual. Pelo caminho surgiu a oportunidade de colaborar com marcas e entidades como a Fujifilm, Museu Berardo, Escada, Issey Miyake e Volkswagen.

Recebi o prémio de melhor mural na gala InstiesGerador 2018 e em 2019 voltei a subir ao palco eleita a melhor instagrammer de Portugal, prémio que abriu as portas à minha primeira exposição individual.

Como vou – Filtros e temáticas prediletas

Apreender o espaço arquitectónico e dar-lhe novos contornos narrativos é uma constante nos meus registos. Existem neles metáforas sobre a forma como habitamos e nos relacionamos com o mundo, como deixamos uma marca por onde passamos e como somos mínimos num mundo que tomamos como nosso.

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Para onde vou – Projetos e objetivos futuros

Não traço metas, 2020 será sempre marcado como o ano do aqui e agora, os planos foram atropelados pela voracidade dos dias. Continuarei a abraçar desafios e a avançar para o desconhecido.

”A cidade se perde nas ausências…”

Uma representação do vazio e do silêncio, por Márcio Borsoi

Sair à noite pela cidade minimiza esse confinamento necessário. Tempo sombrio.

As pessoas não têm mais rostos, somos todos iguais cobertos de branco, um branco imaculado, mas mortal e eu no meu automóvel me sinto protegido.Ilusão traiçoeira.


Penso em Hopper e sigo em frente.

Nasci no Rio de Janeiro e moro em Brasília.

O começo na fotografia foi na década de 70, ainda como estudante de arquitetura. Após um longo período de abandono onde me formei administrador, retorno em 2009 para a fotografia principalmente de arquitetura de interiores.

Atualmente me dedico a fotografia autoral, tenho trabalhos selecionados em Festivais, livros e exposições, individuais  e coletivas, no Brasil e no exterior.

Sou urbano e um observador do cotidiano, o banal das cidades me atrai e uma fotografia com elementos naturais e orgânicos me apraz.

Fotografar é um ato poético e o minimalismo recorrente, “O menos é mais”. 

Minha formação na fotografia vem de Workshops e cursos de História da Arte, estudos teóricos e das obras dos fotógrafos que são minhas referências.

Site

Instagram: @marcioborsoi

Francisco Proner, Brasil [brazilian documental photography]

F​rancisco é um fotógrafo de​ ​20 anos​, curitibano, que ​atua no Rio de Janeiro​.
No ano de 2015 embarcou em uma expedição ao redor do mundo de carro, viajando por 3 continentes. Em 2016​, ​publicou sua história “Lagrimas Secas” na seção de artigos da National Geographic.​ Colabor​ou​ com as redes NINJA Media e “Jornalistas Livres” durante a cobertura de protestos e a crise política no Brasil. 

Em 2017, completou o curso de Dramaturgia e Redação Documental na Escola Internacional de Cinema e Televisão (EICTV)​,​ em Cuba. No mesmo ano, foi convidado para o programa de estudantes Canon e Magnum Photos durante o festival de fotojornalismo Visa Pour L’Image. 

Em 2018, durante a cobertura do processo envolvendo o ex-presidente Lula, Francisco viajou pelo Brasil seguindo os movimentos políticos, ganhando destaque após uma foto do dia da prisão de Lula. A foto foi publicada em vários meios de grande relevância internacional, entre os quais o New York Times, The Guardian, Le Monde e El País. 
No mesmo ano começou a desenvolver e organizar o projeto Anomia, trabalho de longo prazo ainda em andamento. Em 2019, Francisco concluiu o ensaio Sierra Maestra (desenvolvido desde 2017 em Havana, Cuba). 

Membro da agência FARPA.​ 


https://www.franciscoproner.com/
​Instagram: franciscoproner

Garimpo | Ana Frois

O projeto #garimpof508 é destinado à divulgação de trabalhos de artistas e fotógrafos de língua portuguesa.

Semanalmente selecionaremos Instagrans para você conhecer e seguir, com uma entrevista pra que todos possam saber um pouco mais de quem está por trás das fotos. Essa semana garimpamos o trabalho da artista Ana Frois (@ana.frois).

  1. Quem sou:

Ana Frois, Coimbra. Licenciatura em Arquitectura pelo DARQ/FCTUC (1998). Pós-Graduação em “Estudos Avançados em Arquitectura, Território e Memória” pelo DARQ/FCTUC (2005).

Desde 2013, e depois de mais de uma década a trabalhar em arquitectura, tenho desenvolvido um trabalho no campo do desenho e imagem. No meu trabalho estão presentes os temas da casa e da natureza transformada e do registo da passagem do tempo.

2. Como vou:

“Nothing like something happens everywhere”

Time is the Tiger, Março, 2019


3. Para onde vou:

Neste momento estou a trabalhar num projecto chamado À escuta: a cidade sonora que cruza o som e a imagem através de um percurso pela cidade. Este projecto está inserido no evento “Dar a ouvir.

Estou também a trabalhar num projecto que se vai chamar Biblioteca.

www.anafrois.com

www.instagram.com/ana.frois/

A fada de Sintra | Editorial

Fotografia: Raquel Pellicano (Estúdio f508)
Modelo: Isabela Gomes
Styling: Rachel Smidt
Maquiagem: Talita Sá

A Lenda da Gruta da fada é uma Lenda de Sintra, que já o sendo acaba por ser um mito em si. O que é capaz de tornar essa lenda em mito, é o facto de as poucas linhas existentes que a tornam numa Lenda de Sintra, subsistem no tempo e no espaço, sem que a mesma se alargue.

  Publicada pela primeira vez no jornal / revista Cyntra, número 6 de 1912, de acordo com Manuel Gandra, a Lenda da Gruta da Fada deu azo a que fosse quase sempre confundida com a Gruta do Monge no Parque da Pena.

  A lenda em si, é tão pouco esclarecedora tal a sua localização. Refere que nessa gruta, uma inominada fada, vai sempre sem razão que se conheça, todas as noites chorar o seu destino que desconhecido é também na lenda. Uma estranha curta narrativa, que perdura até aos dias de hoje, e provavelmente perdurará, de tão fantasiosa que se torna ao conter tão poucos factos.

“Gruta formada por uma imensa rocha de granito, apoiada em dois rochedos que a flanqueiam. Diz a lenda que uma fada todas as noites, cerca da meia-noite, ali vai carpir o seu destino. A referida gruta fica na entrada da Pena, à esquerda de quem sobe, quase ao chegar ao portão principal do Parque da Pena.”–

© Pesquisa e texto: O Caminheiro de Sintra

Em breve, teremos inscrições abertas para o curso de fotografia de Retrato e Moda, com a fotógrafa Raquel Pellicano. Saiba mais: https://www.f508.pt/2019/03/23/retrato-e-moda/

Festival de Fotografia de Tiradentes 2020

O Festival de Fotografia de Tiradentes – Foto em Pauta chega à sua décima edição em 2020. Entre os dias 18 e 22 de março, a cidade será palco de diversas exposições, workshops, palestras, debates, leituras de portfólio, projeções de fotografias e atividades educativas voltadas para a comunidade local.

Reafirmando seu compromisso com a qualidade da programação, o Festival proporciona ao público ricas experiências e trocas com profissionais de renome nacional e internacional, cuja produção artística é representativa no cenário da fotografia brasileira.

Exposições confirmadas:

[O que os olhos alcançam – Cristiano Mascaro]

Curadoria: Rubens Fernandes Junior

Imagens da carreira do artista, atuante há 50 anos na cena fotográfica brasileira e internacional. A mostra é um recorte da exposição realizada no Sesc São Paulo em 2019.Cinzas do Norte

[Cinzas do Norte]

Curadoria: João Castilho e Pedro David

A exposição Cinzas do Norte é resultado de uma viagem curatorial realizada pelo projeto Foto em Pauta na estrada, passando por Belém, Manaus, Rio Branco e Porto Velho. 34 artistas tiveram trabalhos selecionados para a exposição coletiva:

Alberto Bitar (PA), Alberto César Araújo (AM), Alexandre Sequeira (PA), Andréa Bernardelli (AP), Beethoven Delano (RO), Bruno Kelly (AM), Coletivo Madeirista (RO), Danilo de S’Acre (AC), Dharcules Pinheiro (AC), Duda Santana (PA), Fabiano Carvalho (AC), Felipe Fernandes (AM), Hannah Lydia (AC), José Viana (PA), Joyce Nabiça (PA), Juliana Pesqueira (AM), Katja Hölldampf (PA), Marcela Bonfim (RO), Miguel Chikaoka (PA), Nayara Jinknss (PA), Nailana Thiely (PA), Natali Araújo (RO), Nico Ambrosio (AM), Paulo Desana (AM), Raio Verde (PA), Raphael Alves (AM), Renata Kelly da Silva (RO), Rodrigo José Correia (PA), Saulo de Sousa (RO), Suzane Oliveira (PA), Ubiratan Surui (RO), Ursula Bahia (PA) e Walda Marques (PA).

[Através do Olhar  |  Curadoria: Thaís Rocha]

A mostra reúne trabalhos das fotógrafas Aparecida Silva, Fernanda Dias, Thaís Alvarenga e Valda Nogueira. As autoras, oriundas da zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, apresentam um olhar sobre seus territórios com registros sobre a paisagem urbana e os modos como os grupos se apropriam dos seus lugares criando suas próprias formas de sociabilidade e códigos de convivência, ao mesmo tempo em que circulam para documentar os saberes e práticas culturais e religiosas de comunidades tradicionais espalhadas pelo Brasil, valorizando a memória e as formas de resistência destes grupos.

[Beira mundo, o que se vê além dos olhos – Juliana Lima]

A exposição é um convite da fotógrafa Juliana Lima para uma reflexão de como estamos enxergando o mundo em que vivemos, e como estamos nos posicionando e nos expressando nele. A mostra também oferece um olhar antropológico e artístico sobre diversas culturas através das inúmeras viagens que a fotógrafa fez pelo mundo. São obras que expressam momentos, costumes e comportamentos de povos e habitats.

[Scott MacLeay: 40 Anos de Provocação]

Exposição retrospectiva das obras do artista canadense Scott MacLeay, cuja prática em novas mídias compreende fotografia, multimídia, vídeo e composição musical, abrange o período de 1979 a 2019. A exibição apresenta trabalhos analógicos em preto e branco e em cores, e inclui desde impressões dicromáticas que utilizam o processo “carvão” de Fresson, produzidas entre 1979 e 1988, e impressões “ink & scan”, a obras musicais dos anos 90, bem como trabalhos recentes em fotografia e vídeo voltados à arte performática interativa.

[Deslocamentos | Curadoria: Renato Negrão]

Fotógrafos: Andrea Angelo, Angela Barros, Cristina Pye, Eduardo Sandeville, Fernanda Fernandes, Giancarlo Ceccon, Malu Mesquita, Maximo Hernandez, Paulo Henrique Cruz , Pradip Mazumder, Ubiratan Surui, Ricardo Tokugawa, Sandra Carrillo, Sérgio Silveira, Socorro Monteiro e Vera Resende.

Desde que a fotografia surgiu, no século 19, o mundo passou a ser revelado pelas lentes dos fotógrafos. É comum a ideia de que a fotografia é um grande passaporte, uma espécie de convite para que os fotógrafos partam para lugares onde não iriam se não fosse para fotografar. O curador Renato Negrão convidou alguns profissionais para mostrar séries realizadas em viagens, nos mais diversos países.  “Deslocamentos” é sobre a experiência pessoal de cada um, o que escolheram mostrar de suas andanças pelo mundo.

Arthur Omar e o glorioso da face carnavalesca

“A minha série Antropologia da face gloriosa começou em 1973 como um percurso através do Rio de Janeiro no Carnaval, registrando a multiplicidade quase alucinatória nas ruas da cidade. Nos anos 1970, a presença popular ainda era muito marcada. Se por um lado hoje isso diminuiu um pouco, por outro, o projeto se tornou mais sutil e meticuloso.

No início, era espontâneo, inocente. Ia porque achava divertido. Não tinha qualquer obrigação. Aos poucos, percebi que uma atividade constante e coerente estava sendo executada ali, na materialidade do que fazia. Era uma relação com o outro, a aparição do rosto do outro. Uma relação fotográfica de fascínio e obsessão, repetitiva e insistente, misto de gozo e terror, cujo produto era reunido num arquivo que não cessava de crescer.

Aos olhos do fotógrafo, naqueles momentos cruciais, momentos de intensa dilapidação da essência, os retratados pareciam vindos de outro universo. Cada um era uma população ou uma tribo de uma só pessoa, pertencente a uma esfera de total disfarce, mas, ainda assim, dividido em grupos estudáveis e passíveis de descrição (embora in-descritíveis). Ali, havia simulações de mundos que aparentemente eram primitivos, saídos do interior do inconsciente coletivo e transformados pela fantasia concreta de outros mundos, encaixados como cartas de baralho.

Apesar de próximos a mim na cidade, eram oriundos de uma grande distância experiencial. A rua era a mesa. As cartas empilhadas num monte, ou ocultas na mão dos jogadores. Não era um jogo de paciência, mais parecia pôquer, onde o olhar faz parte da técnica do jogador. Nesses momentos iniciais, ainda blefava e tentava dominar a atividade dos olhos.”

Fonte: revistazum

Carnaval na Lona de Rogério Reis

“A lona é a cortina entre o excesso e o que de fato quero ver”, diz  Rogério Reis na introdução do seu livro Na Lona. Ao longo de catorze anos, Rogério fotografou o carnaval no Rio de Janeiro.

O retrato dá importância ao retratado, singulariza-o. Já a lona traz o foco para o indivíduo, antes confundido com a multidão. Destacando os foliões do contexto, Rogério os magnifica e, em  seu palco – a lona – faz deles protagonistas.

As imagens nos mostram a inventividade e a criatividade do folião, que improvisa e cria fantasias com materiais precários, enfatizando o exagero e o excesso. Seu acervo lega à posteridade a riqueza de rostos, máscaras, fantasias e tipos humanos, nos quais reside a voz do atrevimento, a coragem de transgredir, a inversão de valores. As imagens do fotógrafo – feitas em preto e branco – fazem do carnaval, que é colorido por natureza, algo quase irreal.

O  fundo liso – a lona – tornou famosos grandes retratistas franceses e é um recurso que acompanha os fotógrafos desde o início da fotografia, como forma  de valorizar o cliente que encomendava o retrato.  No século 19, diversos fotógrafos que viviam no Brasil utilizaram-no: Marc Ferrez, Alberto Henschel, Augusto Stahl ou Christiano Jr.

O fundo neutro – seja ele de papel, lona, pano; uma parede ou qualquer coisa que destaque o retratado do entorno – é um recurso utilizado até hoje, já que é essencialmente ligado à representação. Lançam mão deste artifício de fotógrafos de moda a fotojornalistas. Irving Penn, que à frente de um fundo infinito pôs de modelos de alta-costura a nômades do Saara, disse, certa vez: “Preferi tarefa mais limitada: ocupar-me somente da pessoa, longe dos incidentes de sua vida cotidiana, vestindo simplesmente suas roupas e ornamentos, isolada em meu estúdio”.

É interessante lembrar que o fundo neutro não é utilizado, quando o interesse é contextualizar o retratado. Para Rogério, o contexto não era necessário: isolados, os foliões parecem, às vezes, com esculturas. Assim, a mensagem que carregam, muito mais social do que estética, também se destaca.

Todo retrato é uma máscara mortuária, uma ilusão de que podemos deter o tempo. Todo retrato nos coloca  diante de nossa finitude. Mas estamos no carnaval e as deliciosas fotografias de Rogério Reis nos fazem viver a alegria que a vida pode nos proporcionar.

Joaquim Paiva

Rumos e sentidos de Raquel Pellicano


Em 2020, a artista brasiliense seguirá novos caminhos em Lisboa, mantendo sempre a fotografia como seu norte

O celular tocou e interrompeu a história do shitzu que se apaixonou perdidamente pela cadela vizinha. A ligação poderia ser um pedido de orçamento para algum ensaio fotográfico ou cobertura de evento, um chamado para alguma entrevista, mas era só telemarketing oferecendo pela trigésima vez no dia um novo plano de dados para o celular da “dona Raquel Pellicano”.

Do outro lado da linha, o atendente ouviu a voz mais serena daquela tarde. Raquel explicou detalhada e objetivamente porque gostaria de manter tudo como já estava e, assim que desligou, soltou um “porra, o telefone não me deixa em paz!”. Enfim contou que a cadela vizinha fugiu do cercadinho, passeou na frente de casa e encantou o Cookie. Além da estreita relação mãe e filho, precisou usar da sua persuasão incisiva e delicada para acalmar os ânimos caninos.

Que me desculpem o atendente de telemarketing e o Cookie: sinto informar mas a firmeza e a ternura devidamente equilibradas que vocês sentiram não foi exclusividade. Essa é a rotina de quem convive com a fotógrafa de 32 anos. Ainda que meu nível de convivência não chegue aos pés dos amigos de infância em Brasília, do ballet ou do IDA (Instituto de Artes da Universidade de Brasília), ouso dizer que a proximidade adquirida ao longo dos meses em que trabalhamos juntos me permite alguma boa noção.

Pressuponho que a nossa relação ganhou um novo fôlego quando Raquel, sem nem saber, quase gerou um conflito diplomático na minha família. A parte paterna do meu sangue é goiana e, orgulhosos de nascença que são, adoram pequi, um fruto típico do estado do Goias, de gosto e cheiros excêntricos. Depois de anos renegando veementemente qualquer convite da minha vó que envolvesse o tal fruto, com a Raquel eu degustei pequi pela primeira vez: num tablete de chocolate amargo artesanal com pedacinhos de pequi, é verdade. Desculpa, vó, mas aqui no trabalho tem essas coisas de comidas diferentes, requintadas, culpa da Raquel. Um dia desses te visito e a gente come um arroz com pequi no capricho.

Se no meio da tarde o cheirinho de muffin de alho poró saindo do forno do café do Espaço f/508 (o Quintal f/508) atiça todo mundo, vai chegar antes ao faro Pellicano. Ter alguma espécie de intuição olfativa especial é a única explicação para conseguir notar movimentos em qualquer canto da empresa (não só daquilo que sai do forno): se um curso novo ou o roteiro de uma Trip Fotográfica estão sendo criados, se um post no Instagram ou uma lâmpada no corredor não estão indo bem; se estão falando da série nova da Netflix ou do problema no encanamento, lá está. Nada escapa.

No estúdio fotográfico, essas sensações afloram de uma vez só. Com câmera na mão e modelo posicionada ou abajur ligado e fotos para tratar no notebook de teclado colorido, é ali que mais se sente à vontade. No Estúdio f/508, orquestra uma equipe formada por 5 mulheres, encarando e sentindo na pele os desafios de ter uma empresa 100% feminina, num país que insiste em não compreender a presença de mulheres no mercado de trabalho e empreendendo e no mundo das artes e em qualquer lugar.

Enquanto certas obviedades ainda têm que ser explicadas didaticamente, outras se deduzem facilmente. É quase automático entender que quem fez a carreira fotografando pessoas tenha tato de sobra. Transborda satisfação por todos que passaram pelas suas lentes: seja entre as jogadoras da Seleção Brasileira Feminina de Futebol ou entre capas de revistas de moda ou qualquer pessoa que gostaria de se ver numa imagem feita por alguém reconhecida por sua sensibilidade.

Não consigo afirmar qual — ou quais — desses sentidos foram responsáveis pela mudança de rumos que definiu a próxima etapa da vida a ser cumprida. Consigo determinar elementos mais práticos, como data e local: a partir de fevereiro de 2020, Lisboa será sua nova casa. Para a capital portuguesa, levará o Cookie, alguma câmera, parte do Espaço f/508 e sua delicadeza fotográfica, profissional e de todas as suas facetas.

Que os lisboetas estejam avisados: qualquer dia, a pura imagem da sinestesia desembarcará por aí.


Além das minhas próprias impressões, fiz algumas perguntas para Raquel. Aqui estão suas respostas sobre a profissão, a experiência de fotógrafa e as expectativas para mudar de continente.


Aos 32, ser reconhecida como fotógrafa, ser empreendedora, professora e artista. Ainda falta alguma coisa?
Tenho muita vontade de me dedicar a outras áreas também, como o design de jóias e a ilustração. Ainda gostaria de desenvolver a colagem e ter um trabalho de fotografia autoral mais forte.

Seguindo no ritmo da pergunta anterior: atualmente, quais fatores tornam possível ser empreendedora, professora e artista no Brasil?
Penso que seria mais fácil responder quais os fatores que tornam quase impossível. Mas problemas à parte, a vontade de produzir e viver de algo que eu gosto é um fator que impulsiona bastante esse trabalho. Também acredito que se propor a fazer as coisas sempre com carinho e esmero, atenção a cada detalhe, ajuda a propostas de negócio serem bem sucedidas. Infelizmente, o apoio a projetos culturais e artísticos se torna cada dia menor no nosso país, o que dificulta o surgimento de novas iniciativas e o subsídio de artistas.

Por quem você gostaria de ser fotografada?
Adoraria ter um retrato em polaroid pela fotógrafa Liliroze.

Para leigos, creio que seja mais fácil supor o nervosismo de quem está sendo fotografado do que imaginar a sensação de quem está ali para fotografar. Há alguma sensação que se assemelha ao início de um ensaio importante? Você tem algum ritual antes do início de mais um ensaio? Como é esse momento para você?
Acho que concentração para qualquer coisa que fazemos na vida é crucial. Enquanto meu cliente está sendo produzido e maquiado, costumo já estar presente para conhecer melhor o clima do trabalho. Gosto de trocar uma ideia e focar para estar totalmente ativa e atuante naquele momento, já que fotografar pessoas exige constante troca e diálogo. Estar à frente de um ensaio fotográfico é também se colocar sensível e aberto ao que o outro pode te proporcionar em matéria de criação imagética.

Quais foram as dificuldades do ensaio mais complicado que você já teve que fazer? 
Acredito que quando fotografamos pessoas a pressão faz parte do dia a dia, já que existe sempre grande expectativa do outro em relação a um resultado final bem sucedido. O ensaio mais tenso pra mim foi um trabalho com a seleção brasileira de futebol feminino. Elas tinham pouco tempo e disponibilidade, e eu não poderia me alongar para quebrar o gelo e tornar aquele momento leve. Minha maior frustração foi ter que ser rápida e objetiva devido ao uso final do trabalho, sem oportunidade para elaborar retratos sensíveis, com os quais me identifico mais.

A ficha já caiu que você comprou uma passagem só de ida para outro continente?
Acho que só vai cair a ficha mesmo quando eu estiver lá. Vai ser uma boa oportunidade para me reinventar também.

Além do Cookie, o que certamente não ficará de fora da sua bagagem para Portugal?
O equipamento fotográfico (naturalmente) e a nossa coleção de cabeças, que contam um tantão de histórias.

Falamos a mesma língua de Portugal e compartilhamos alguns traços culturais. Em quais pontos você já extrapola esses limites e consome cultura portuguesa?
Adoro ouvir os músicos da nova geração portuguesa. Tem muita coisa incrível que os brasileiros não consomem, com um frescor e leveza maravilhosos: Joana Espadinha, Luís Severo, Cassete Pirata… a lista é grande.

Texto e entrevista por André Porto

#garimpof508 Sara Lusitano

O projeto #garimpof508 é destinado à divulgação de trabalhos de artistas e fotógrafos de língua portuguesa.

Semanalmente selecionaremos Instagrams para você conhecer e seguir, com uma breve entrevista para que todos possam saber um pouco mais de quem está por trás das obras. Essa semana garimpamos o trabalho da artista Sara Lusitano (@saralusitano)

1- Quem sou: 
O meu nome é Sara Lusitano, sou fotógrafa e sou de Lisboa, Portugal. Nunca estudei fotografia; há cerca de 2 anos e pouco comecei a tirar fotos com uma câmara analógica e foi aí que me comecei a interessar a sério pela fotografia. Desde então, fotografo sobretudo projetos pessoais, alguns dos quais foram exibidos em exposições dentro e fora de Portugal.

2- Como vou: 
Gosto sobretudo de fotografar pessoas e o corpo. Ainda estou a descobrir como conciliar dois ângulos distintos que captam o meu interesse: o corpo como algo abstracto e a vulnerabilidade. Até agora, inicialmente por coincidência mas depois propositadamente, tenho-me focado mais na vulnerabilidade masculina — acho interessante explorar esse lado do homem que é o oposto do mais típico “macho forte”.

3- Para onde vou: 
Nos meus próximos projetos vou abordar outro tema que também me interessa muito, que é a forma como olhamos para nós mesmos, a auto-percepção e como essa percepção é influenciada por pressões sociais. Também quero fazer projetos documentais, algo que nunca fiz mas que acho fascinante, especialmente quando olho para o trabalho de fotógrafas incríveis como a Sian Davey, a Laura Pannack e a Peyton Fulford.

Quer ver o seu trabalho aqui e nas redes do f/508? Use a hashtag #garimpof508 no instagram para a chance de ser selecionado 🙂